O riso da Medusa, de Hélène Cixous

Por Ana Sainz Quesada 




A ideia de que o contexto, seus atores, representantes e símbolos moldam o pensamento contemporâneo não é de forma alguma revolucionária; Hélène Cixous já a defendia em 1975 e continua a fazê-lo até hoje, com a publicação de O riso da Medusa, sem qualquer traço de obsolescência. 

Judia francesa nascida na Argélia — talvez uma das poucas publicamente modestas por conta de sua origem —, Cixous explora o que, na época, era uma nova relação entre literatura e sujeito, entre linguagem e psicanálise. Ainda profundamente enraizada na tradição filosófica de seu tempo — ela foi contemporânea e colega de Jacques Derrida, Michel Foucault e Lacan —, sua escrita mantém uma busca contínua por brechas por onde a fluidez, desobediente e em constante transformação, possa se infiltrar, e a partir das quais ela reivindica o papel fundamental do inconsciente, um arquétipo presente em todo o texto e um de seus epicentros. 

Hélène Cixous pratica a insubordinação formal: os significantes são despojados de significado num ato consciente de libertação dos limites da ordem simbólica patriarcal. A gramática dança, salta e gargalha, rítmica e vocal. Ela constrói seu léxico à maneira alemã, criando conceitos pela combinação de palavras — por exemplo, mulher-em-luta(s);  falogocentrismo (falo + logocentrismo); sexto, expressão que encapsula a ideia de que a sexualidade feminina é uma nova forma de escrita até então não descrita —, transformando os neologismos num agente travesso e poético. 

Ela também cria silêncios, reclames e sussurros com a pontuação. Ela diz: “É escrevendo, a partir da e em direção à mulher, e enfrentando o desafio do discurso governado pelo falo, que a mulher afirmará a mulher num lugar diferente daquele reservado a ela no e pelo símbolo, ou seja, o lugar do silêncio. Que ela escape da armadilha do silêncio. Que ela não permita que a reduzam aos limites da margem ou do harém.”. E, a torrente de seus textos não pode ser contida por nenhum molde. Naquilo que ela denomina écriture femenina, libertar-se de um significado único concede plasticidade e movimento à linguagem, permitindo um uso mais amplo, metafórico, diverso e lúdico. Não há nada de gratuito em chamar os significantes de “criaturas lúdicas”.

Embora o cenário possa parecer diferente agora — não é preciso estar cercada por homens com nomes de peso para publicar seu primeiro texto seja em qualquer idade —, encontrar algo “desafiador” continua sendo (e perdoem minha preguiça lexical) um desafio. Apreciamos a vastidão do campo em que podemos buscá-lo, a expansão de um território a ser explorado e examinado, cercado por margens repletas de escrita feminina, fluida e livre, um jardim amplo e exuberante fora da norma que faríamos bem em percorrer com respeito e carinho. Como alguém que passeia por um parque natural, sabendo que habita um espaço que precisa ser cuidado e preservado antes de ser devastado pelos incêndios de verão e pela linguagem do marketing. 

A jovem Hélène precisava se distanciar da cena clássica para encontrar um novo tipo de ousadia, algo que ainda não havia acontecido. E assim o fez: adiantando-se ao seu tempo. Em O riso da Medusa, propõe a escrita como o único espaço em que o pensamento subversivo pode se desenvolver. Sem fazer distinções quanto ao gênero de quem escreve escritor, ela estabelece os ditames de uma nova forma e uso da linguagem associados ao feminino, que podem ser praticados independentemente do que se tenha entre as pernas. 

Ao defender a eliminação dos sistemas binários a serviço da ordem patriarcal e característicos da linguagem masculina — que até então as mulheres também utilizavam —, Cixous antecipa as necessidades do feminismo futuro; os homens também são vítimas e prisioneiros de seu próprio falo, da ideia de não tê-lo: ao falar de uma escrita masculina, faz isso para fixá-la como uma forma operacional e criadora de regras, restringindo-se, assim, a si mesma. Uma literatura que exclui a feminilidade, a torna invisível ou a representa apenas a partir de sua própria perspectiva. Para Cixous, a poesia existe no inconsciente, no “reino sem limites” onde, como na escrita, as mulheres resistem. E é na poesia que encontramos a ruptura, transformada em agente desconstrutivo da rigidez.

Para Ana Mendieta, reivindicar o corpo significava resgatar uma linguagem que lhe permitisse comunicar-se com o ambiente e a paisagem. No pensamento de Cixous, as mulheres, na escrita, reconquistam seus corpos. E essa escrita, incapaz de ser codificada ou de se encaixar nas estruturas do simbolismo falocêntrico, de ser subjugada ou contida, encontra-se nas margens onde vivem e se desenvolvem sujeitos disruptivos: gays, lésbicas, bissexuais, negros, travestis etc. O que assusta, a alteridade, esse medo da feminilidade. 

Em Cixous, o corpo é a ferramenta. As mulheres tinham tudo para escrever sobre mulheres; agora, o corpo feminino se permite — é permitido — experimentar outros significados que o permeiam, encontrando referências nas produções culturais — a mulher desejante (Paixão simples), a adúltera (De quatro), a abandonada (Anna Kariênina), a assassina (As mães são muitas) —, emancipando-se e sendo mais capazes de dominar o verbo.

Este texto combativo, passional e inclassificável — manifesto não é palavra suficiente — reclama e abre espaço, o espaço que ocupam a carne, os músculos e os ossos, físico e tangível e, como o universo, em contínua expansão.


______
O riso da Medusa
Hélène Cixous
Natália Guerellus e Raísa França Bastos (Trads.)
Bazar do Tempo, 2022
116p.


* Este texto é a tradução livre de “La risa de la Medusa, de Hélène Cixous”, publicado aqui, em Jot Down.

Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

John Steinbeck muito além da ira e do Éden

A cabeça do santo, de Socorro Acioli

Os escritores e suas fotos

Dez poemas e fragmentos de Safo

Rubem Fonseca: a fascinação do abismo

Seis poemas de Rabindranath Tagore