Postagens

Para tempos de isolamento: Daniel Faria

Imagem
Por Paula Luersen Daniel Faria. Foto: Augusto Baptista Repito que vivo enclausurado na agilidade de um animal nascido Correndo ao lado dele, correndo para ele – era assim Que eu queria que fosse a linguagem veloz: Uma casa para a infância com trepadeiras Para que as palavras ficassem como frutos no alto. Repito a corrida na memória quando estou parado Penso velozmente que o amor, como Dante disse, é um estado De locomoção. É um motor. E fico a trabalhar no mecanismo secreto Do amor. Sei que estou em viagem na palavra que se move. Repito o trajecto para ver o poema de novo – era assim Que eu queria que fosse a linguagem de uma coisa amada Correndo ao meu lado, correndo para mim no mecanismo violento Do amor. Era nele que eu queria a casa com trepadeiras Onde as palavras ficassem silenciosas e altas como um pátio interior * Os dias de isolamento me trouxeram novamente os poemas de Daniel Faria. Em especial, o título de uma das s...

Pela noite, de Caio Fernando Abreu

Imagem
Por Pedro Fernandes Caio Fernando Abreu. Foto: Louis Monier  A eterna solidão de um romântico fora do tempo. Esta frase bem poderia ser lida como uma síntese mais ou menos coerente sobre a obra de Caio Fernando Abreu e, por extensão, constituir um designativo da natureza do próprio escritor. Se fôssemos em busca de uma arqueologia de sua formação, certamente encontraríamos em sua base, entre outras influências evidentes (algumas delas inscritas vivamente ou disfarçadas na sua obra), Clarice Lispector e Hilda Hilst. Da primeira, emulou a lida com o interior e as consciências em estágio de perturbação pelo passado ou pelo iminente; da segunda, certo apelo para o corporal, os fluxos do desejo e das liberdades de sentir. A apropriação dessas duas escritoras se perde no embuço que vestiu para trazer ao centro do literário situações e figuras condenadas ao silenciamento e, se apresentadas, tomadas pelo risível ou pela degradação punitiva de uma ordem que apesar de abrigá-l...

Retrato do escritor como um amigo

Imagem
Por Juan Cruz Natalia Ginzburg. Foto: Marka / Reprodução Existem livros que alguém adota como se fossem amigos órfãos. Eles nascem, crescem, se reproduzem, criam outros livros ou outras referências e, assim, tornam-se novos para quem os lê. Mas quando você os descobre, eles são livros singulares que não precisam de nada de você, saem das estante e alcançam as mãos de pessoas que, provavelmente, os amarão da mesma maneira que você, ou até mais, e farão uma melhor leitura, distribuirão uma maior alegria, pois ler é alegrar-se, como quando você se sente feliz com o filho (ou o neto) que, inesperadamente, se mostrou sábio. Nessa adoção do livro, é claro, há uma apropriação indevida, à qual incorro muitas vezes. De uma maneira muito particular, com esses dois cuja adoção me levou a fazer propaganda. São Flores en las grietas ¹, de Richard Ford, e As pequenas virtudes , de Natalia Ginzburg. Os dois livros têm textos que dão as mãos e é isso o que realmente me levou a me ent...

O lume das recordações: Uma leitura do romance “Coivara da memória”, de Francisco J. C. Dantas

Imagem
Por Flaviana Silva Reconhecer a grande marca estabelecida pelo romance de 1930 nas produções dos autores do Nordeste é essencial para viajar pelas obras que nomeamos como sendo contemporâneas. Após a leitura de Coivara da memória é prudente ter em mente que essa influência ainda “arde” positivamente em nossa arte literária. Diante desse livro de estreia do autor Francisco J. C. Dantas, cabe ao leitor sentir o aroma da terra e viajar em um enredo intrigante, guiado por uma originalidade singular.   O romance foi publicado em 1991 e logo a escrita do seu autor comparada a de Guimarães Rosa; não é exagero. O que encontramos nesta obra é uma construção interessante; e, apesar de elementos em destaque, como a descrição do espaço, por exemplo, ela não permite generalizações. A tessitura da narrativa é cheia de desconstruções em relação ao tempo e às personagens e se fundamenta entre contrastes que cercam questões ideológicas e culturais. O narrador é um a...

Segredos e sementes: O olho mais azul, de Toni Morrison

Imagem
Por Guilherme Mazzafera “onde as crianças brincam existe um segredo enterrado” (Walter Benjamin, “Chichleuchlauchra: Sobre uma cartilha”) O primeiro romance de Toni Morrison, O olho mais azul (1970), relançado recentemente pela Companhia das Letras em tradução de Manoel Paulo Ferreira, debruça-se em sua própria concepção sobre um problema dificultoso: como uma escritora negra pode falar de pessoas e assuntos negros valendo-se de uma forma concebida para adequar-se ao indivíduo branco, burguês, livre tanto na esfera da produção (o romancista) quanto na de representação (os personagens)? Em face de tal pergunta, recorramos ao didático Marxismo e crítica literária, em que Terry Eagleton fornece uma importante observação sobre o imbricamento profuso entre forma literária e ideologia: “Ao selecionar uma forma, portanto, o escritor descobre que sua escolha já está limitada ideologicamente. Ele pode combinar e transmutar as formas disponíveis em uma tradição lit...

Boletim Letras 360º #373

Imagem
DO EDITOR 1. Nesses dias de confinamento social, os que acompanham muito de perto o universo dos livros, terá encontrado uma programação quase inalcançável de conversas virtuais desenvolvidas por editoras. Particularmente, não acompanhei nenhuma – exceto uma entrada ou outra nas transmissões. Isso porque os assuntos quase sempre estão restritos aos bastidores de trabalho dos profissionais da edição, assunto pelo qual não guardo qualquer interesse, e porque o trabalho aqui segue em alta. Mas, é uma oportunidade de ouro para que os leitores possam compreender a dinâmica de realização de um livro, além, é claro, sobre a extensão do mercado editorial e como os segmentos são afetados pelas imposições de novos hábitos, o que, por sua vez, permite rever aquela compreensão que falta a alguns de pensar fora do seu próprio conforto e bem-estar na aquisição do livro, quando escolhe vias duvidosas ou ainda de menor custo para se ter sempre mais. E é, para quem procura, uma alternativa de dis...