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John Updike, o profeta da infidelidade resolvida

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Por Rodrigo Fresán John Updike. Foto: Yousuf Karsh   Com a morte de Jonh Updike em 2009 se iniciou a mais onipresente e estranha das ausências. O escritor publicava pelo menos um livro por ano (ficção ou poesia ou uma coletânea de ensaios sobre tudo o que lhe interessava, que era nada mais e nada menos que tudo), aumentando assim uma obra que o colocava, outubro após outubro, dentro da prestigiosa e estigmatizante lista dos apostadores com aqueles que deveriam (mas não poderiam) ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Como no caso do seu colega de profissão com quem parecia travar o mais elegante, mas não menos forte duelo literário — Philip Roth —, a justiça se fez para nenhum dos dois. Mas o que foi dito acima não privou Updike de se dar ou nos dar o luxo de fazer muito e de várias maneiras.   Só para citar alguns marcos: os contos autobiográficas com um alter ego e uma região própria (David Kern pelas ruas de Olinger ou Tarbox), o ciclo de romances com um personagem que refl...

Uma viagem ao país dos surrealistas

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André Breton e Leon Trótski, no México, em junho de 1938. Há uma tendência a acreditar que a viagem dos três surrealistas ao México - refiro-me a Antonin Artaud, André Breton e Benjamin Péret — foi algo semelhante a uma lua-de-mel ou a umas férias prolongadas em um lugar exótico. O balanço final convida-nos a qualificar o mito em cada caso, embora por razões diferentes. Os dois primeiros chegaram amparados por um programa oficial de conferências, enquanto o terceiro teve que se contentar com esta terra de exílio na Segunda Guerra Mundial, quando teria preferido encontrar-se com os surrealistas que estavam asilados em Nova York, algo que foi proibido devido à sua militância trotskista.   Para Antonin Artaud, relata Luis Cardoza y Aragón, “o Departamento de Ação Social da Universidade Nacional Autônoma do México patrocinou três conferências. Em todas foi além dos textos que conhecemos. Apresentou-as nos dias 26, 27 e 29 de fevereiro de 1936, no Anfiteatro Bolívar, da Escola Prep...

Boletim Letras 360º #615

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Sophia de Mello Breyner Andresen. Foto: Louis Monier LANÇAMENTOS   Edição reúne dois livros de Sophia de Mello Breyner Andresen .   Ela soube conjugar de modo único a observação da natureza com a dimensão humana. A descrição concreta e material da paisagem — com destaque para o mar, tema central de sua poesia — convive com reflexões sobre o amor, a morte, a dor, a injustiça e a solidão. Publicado pela Companhia das Letras, volume reúne duas obras publicadas de forma avulsa na década de 1960 e traz temas dos mais recorrentes em toda a produção da autora e atesta o impacto da poesia brasileira em sua trajetória. O Cristo cigano , lançado em 1961, revela a influência decisiva da poesia de João Cabral de Melo Neto. Já Geografia , de 1967, descreve, entre outros temas, cenas da infância, o contato com a Grécia e a admiração pela obra de Manuel Bandeira. Você pode comprar o livro aqui .   Um romance secreto e conflituoso que tem como pano de fundo a Guerra dos Seis Dias . ...

Tempo de retorno: “Os tempos da fuga”, de Giovana Proença

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Por Vinícius de Silva e Souza   Com reticências Giovana Proença inicia, de maneira simbólica, o seu romance de estreia: há algo anterior que não lemos. Há algo anterior que escapou. O que se relaciona perfeitamente à protagonista, Lígia (Ou Virginia?), que retorna ao Brasil com o início do período de anistia. Enfim é possível voltar para casa, depois de não poucas fugas. Mas a casa que deixou não é a mesma para a qual retorna.   Algo lhe escapou quando partiu; algo lhe foi tirado. E acompanhamos enquanto tenta retomar:   “não devemos retornar para onde fomos felizes, mas tampouco avisam sobre a impossibilidade de se deixar o marco do infortúnio. Estamos sempre presos à teia, contemplação do vácuo da dor. Abandona as ruas com a paixão do soldado que deixa o campo de batalha e a paixão do lavrador que ateia fogo à terra. Quantas partidas cabem no bolso?”   A autora constrói sua obra, por diversos momentos, com situações vivas e estáticas: a arma firma no rosto. A mão ...

A palavra rompe o gelo

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Por Javier Aparicio Maydeu Jón Kalman Stefánsson. Foto: Leonardo Cendamo   É possível que não seja outra coisa senão a complexidade, a gama de nuances, mesmo quando não emergem ou oscilam em elipses, que transforma uma história em literatura. O que George Steiner chamou o eco fértil, a evocação inevitável, germina na prosa de Jón Kalman Stefánsson.   A tristeza dos anjos parece um díptico. Uma primeira parte corresponde a um interior islandês em que uma epopeia da vida cotidiana se sobressai acima da vida doméstica, dos hábitos simples e cativantes de uma xícara de café quente — mais de uma cena relembra a pintura íntima de portas, mulheres, leitura e silêncio do dinamarquês Vilhelm Hammershøi transferida para o meio rural —, a casa de salga de bacalhau ou um velho rabugento.  A marca de Selma Lagerlöf parece evidente nestas páginas em que a intensidade psicológica enriquece as relações humanas que ocupam uma existência terrena dissolvida no líquido ambíguo do sonho. A...

Gladiador 2 é ridículo, mas não o bastante

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Por Ernesto Diezmartínez   É evidente que a última coisa que interessa a Ridley Scott é seguir o mínimo rigor histórico. E, em sentido estrito, nenhum cineasta — bom, ruim ou mediano — deveria se preocupar com isso. Alguém não deveria se incomodar porque, por exemplo, no filme Gladiador (2000) vemos que o indefensável herdeiro do trono imperial Commodus (Joaquin Phoenix) assassina com as próprias mãos seu pai, o filósofo Marco Aurélio (Richard Harris), quando se sabe perfeitamente que o autor das famosas Meditações morreu de peste quando dirigia uma campanha militar, porque como diriam os clássicos, “ get a life !” O cinema não nasceu para dar aulas de história. E menos ainda o cinema hollywoodiano de togas e sandálias, também conhecido como peplum , ou, parafraseando um certo cantor espanhol, como “cinema de romanos”.   Então, quando, em uma cena marginal da tardia continuação Gladiador 2 (Estados Unidos — Reino Unido, 2024), vemos um personagem lendo um jornal impresso ma...