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Arisca e frágil: assim era Virginia Woolf segundo Victoria Ocampo

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Por Andrea Calamari Virginia Woolf e Victoria Ocampo fotografadas por Gisèle Freund Victoria está em seu quarto de hotel, onde se hospeda sempre que vem a Londres. Ela calça as meias e os sapatos, arruma o vestido, pega um casaco porque o tempo nunca está bom na cidade, olha seu reflexo no espelho e se sente confortável com o que vê. Já não é mais jovem, mas tudo está em seu devido lugar. Ela emerge desse silêncio quando alguém anuncia da recepção que o Sr. Huxley chegou. Aldous Huxley está no saguão do hotel esperando a amiga argentina, que, no andar de cima, está terminando de ajustar os ganchos do chapéu que comprou em Paris — os únicos que gosta de comprar — e logo desce as escadas ou talvez o elevador para o encontrar. É uma tarde agradável, e eles irão ver uma exposição de fotos do incrivelmente famoso e eclético Man Ray. Se tiverem alguma sorte, se Victoria Ocampo tiver sorte, Virginia Woolf estará na exposição, e Huxley os apresentará. Virginia Woolf publica romances, ensaios, ...

Seis poemas de “Corvo”, de Ted Hughes (1970)

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Por Pedro Belo Clara   (Seleção e versões)* Ted Hughes. Foto: Noel Chanan A PORTA Debaixo do sol, um corpo. É o crescimento do mundo sólido. É parte do muro terreno do mundo. As plantas da terra — como os genitais E o umbigo sem flor Vivem nas suas fendas. E também algumas criaturas da terra — como a traça. Todos enraizados na terra, ou alimentando-se de terra, terrenos, Espessando o muro.  Apenas aí existe uma porta, uma porta no muro —  Uma negra porta: A pupila dum olho. Através dela vem Corvo. Voando de sol em sol, encontrou a sua casa. CORVO COMUNGA “Bem”, disse Corvo, “O que fazer primeiro?” Deus, exausto com a Criação, ressonava. “O que fazer?”, disse Corvo, “O que fazer primeiro?” O ombro de Deus era a montanha em que Corvo se sentava. “Vem”, disse Corvo, “Vamos discutir o assunto.” Deus deitado, boquiaberto, uma enorme carcaça. Corvo arrancou um pedaço e engoliu-o. “Irá o enigma revelar-se à digestão, Por escutar além do entendimento?” (Essa foi a primeira brinca...

Boletim Letras 360º #658

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Georges Perec. Foto: Louis Monier LANÇAMENTOS Considerado por Italo Calvino “uma das personalidades literárias mais significativas do mundo”, Georges Perec é o autor de As coisas  (1965), O sumiço  (1969) e A vida modo de usar  (1974), livros que conquistaram o meio literário francês por seu experimentalismo e radicalidade. Também inclassificável, Espécies de espaços  (1974), inédito no Brasil, se situa na fronteira entre o ensaio, o poema e a arte conceitual. Mobilizando conceitos de arquitetura, artes visuais, poesia, cinema, antropologia e geografia, o livro interroga as diversas camadas que informam nossos hábitos e percepções, discorrendo sobre temas como a página, a cama, o quarto, o prédio, a rua, o bairro e a cidade. O presente volume traz um posfácio do pesquisador Jean-Luc Joly e um conjunto de fac-símiles inéditos de Per...

Heliogábalo, a peça inédita de Jean Genet

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Por Amanda Fievet Marques Jean Genet. Foto: Tony Davis Publicada em 4 de abril de 2024 pela Gallimard na Collection Blanche, a peça inédita do escritor francês, Jean Genet, Heliogábalo , escrita em 1942 durante sua prisão em Fresnes, na França, e encontrada recentemente em uma biblioteca de Harvard, acaba de sair no Brasil pela editora Ercolano, com tradução de Régis Mikail e Renato Forin Jr. A peça em quatro atos trabalha fatos históricos urdindo-os à ficção, e reimagina a vida e o assassinato do imperador romano Heliogábalo (203 d. C. – 222 d. C.).  *** O primeiro ato se inaugura com um áugure que lê a sorte para a avó e a tia de Heliogábalo nas tripas de um frango. Prenuncia “pelo preto do fígado e pelo verde da moela” (Genet, 2025, p. 39) que ele morrerá de forma abjeta. O presságio recolhido no despojo do frango cujo estatuto é sagrado dá início a uma conspiração entre a avó e o general, ambos decididos a tramar contra a vida de Heliogábalo, já que ele arrasta o nome do Impéri...

O deserto e sua semente, de Jorge Baron Biza

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Por Pedro Fernandes Jorge Baron Biza. Foto: Arquivo Clarín Com quantos bons livros se faz um escritor? Jorge Baron Biza reafirma que um é suficiente. O deserto e sua semente , seu único romance, foi publicado pouco antes do suicídio que fechou um ciclo de horrores iniciado desde quando o pai e a mãe desenvolveram o mesmo destino. A morte do pai se desenrola depois de atacar a mulher com ácido, episódio que se encontra na gênese do livro em destaque. Aos sedentos do nosso tempo transbordante de autoconfissões, um aviso: as tintas autobiográficas não limitam o desenvolvimento ficcional. Baron Biza reafirma com este romance o que há muito sabemos e é dessas certezas firmadas como a terra é redonda: vida e obra são extensões distintas, embora não exista obra literária em que uma porção da vida nela se infiltre; seus materiais derivam das múltiplas possibilidades do vivido. Depois de uma longa estadia entre os cuidados médicos em Montevidéu, Eligia procura o que a medicina poderia oferecer ...

“As mortas”: horror e humor made in México

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Por Ernesto Diezmartínez  “À memória e ao gênio de Jorge Ibargüengoitia”, diz a dedicatória que aparece no final do sexto e último episódio de As mortas (México, 2025), a primeira série televisiva dirigida por Luis Estrada, fiel, conscienciosa e até laboriosamente baseada no romance homônimo escrito pelo escritor de Guanajuato e publicado em 1977. É uma homenagem simples que soa sincera e, suspeito, até pessoal.  É provavelmente uma coincidência, mas a obra-prima inicial e insuperável de Estrada, a sátira anti-PRI A lei de Herodes (1999), compartilha o mesmo título — embora a premissa seja completamente diferente — do hilário conto escatológico de Ibargüengoitia que deu nome ao seu livro de contos de 1967. Há também o detalhe biográfico de que, ao dirigir As mortas , o diretor de Um mundo maravilhoso (2006) seguiu os passos de seu pai, o vigoroso cineasta populista José Estrada, que na época dirigiu a louvável, embora irregular, adaptação de outro romance homônimo de Ibargüe...