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Anseios e cobranças em A contagem dos sonhos

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Por Vinícius de Silva e Souza Chimamanda Ngozi Adichie. Foto: Jared Soares Dez anos depois, Chimamanda Ngozi Adichie cumpre, enfim, um retorno à ficção, e não apenas, mas à forma com a qual se fez reconhecida: seus volumosos romances. Sim, pois desde Hibisco roxo , nenhuma obra da autora possui menos de 300 páginas, o que a coloca na posição de romancista de mão cheia, sempre disposta a entregar trabalhos complexos e extremamente articulados, em temática, personagem e enredo-narrativa.  Depois de Americanah e seu longo passeio pelos anos da vida de Ifemelu (e também de Obinze), A contagem dos sonhos se debruça sobre quatro protagonistas, todas conectadas entre si: Chimaka, uma mulher “bem de vida”, que vive a escrever livros de viagem e tem sua rotina totalmente revirada com a pandemia da covid-19; Zikora, amiga advogada que passa por uma gravidez indesejada e um parto solitário; Omelogor, prima de Chimaka, uma mulher autônoma e também bem sucedida; e por fim, Kadiatou, a empregad...

Amores brutos e Os esquecidos

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Por Daniel Krauze  Tantos anos depois, é fácil esquecer o impacto que Amores brutos (2000) após vencer o Prêmio da Crítica em Cannes. O filme de estreia de Alejandro González Iñárritu parecia descompassado com o seu entorno, como se uma obra da sua magnitude — em ambição e realização — não pudesse sair de um país que ainda saboreava o mel do modesto Cinema Novo Mexicano. Desde a primeira cena, o longa-metragem sacudia o público como alarme de um despertador. Ao longo de suas mais de duas horas e meia de duração, o filme exibia um ritmo narrativo só fora visto antes no extraordinário O beco dos milagres (1995), de Jorge Fons.  Era um filme que se atrevia a mostrar uma visão única da vida chilanga,¹ tentando abranger todas as classes sociais em um tríptico moderno. Guiada pelo simbolismo eficaz dos cães como reflexos de seus donos, a história de Guillermo Arriaga brincava com o tempo e o espaço, visitando as vidas de Octavio (Gael García), um rapaz de classe média baixa determ...

Sappho

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Por Eduardo Galeno Pois nenhuma relação se forma se o pensamento não a produz. — Simone Weil Safo, 470 a.C. Prescrever   Na seção XV do Peri hypsous , de pseudo-Longino, se introduz, pelas citações que o acompanha, o juízo da aparição ( phantasia ). Ali ele apresenta as condições mínimas para o estabelecimento do que poderíamos chamar de “presença ausente”. Claro que, em outros termos, isso significaria um modo de traduzirmos o distanciamento no vão da percepção e do objeto. Ou: a estrutura residente na transferência entre a poesia e o evento. No caso, há a explicação, sob o exato da efusividade do crítico literário — para usarmos um anacronismo —, de toda uma esfera de se fazer sublime . Demonstrações espertas e fincadas, modelos delimitados (uma pitada de Eurípides, outra de Ésquilo), alguns reparos, algumas notações. O tratado escolheu esse tipo de polêmica por um simples motivo. Certamente, a astúcia do seu autor estava na tentativa de deslocar a mimesis , ou imitação, do âmbi...

O não-dito no romance Asfalto selvagem

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Por Amanda Fievet Marques Nelson Rodrigues Foto: Adalberto Diniz As personagens de Nelson Rodrigues, que encontramos sempre arremessando-se umas sobre as outras, crispadas, hirtas de medo ou de fé, trôpegas, sôfregas, são frequentemente tomadas por paixões. Paixões terríveis, capazes de levar à ruína e à loucura; paixões nostálgicas, em que se rompem os diques do passado e o presente é súbito inundado de desejo; paixões de domínio, paixões religiosas, paixões incestuosas, pervertidas, obsessivas, transgressoras. No romance Asfalto selvagem , publicado inicialmente como folhetim no jornal Última hora , e depois em dois volumes, em 1961, pela editora J. Ozon, há toda uma proliferação e dramatização das paixões humanas, essas comoções que tocam “até as raízes do ser” (Rodrigues, 1994, p. 43), em seu longo e variado espectro.* O notável, no entanto, é que, o mais das vezes, a consumação dessas paixões se exprime por um não dito, uma elipse, uma nomeação indireta.  Na primeira parte,...

Cinco poemas de “Altitudes e Extensões (1980 – 1984)”, de Robert Penn Warren

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* Robert Penn Warren. Foto: Bettmann LIMITE MORTAL Vi o falcão subir o vento no ocaso sobre o Wyoming.  Ergueu-se da escuridão das coníferas, passando impiedosas Cristas cinzentas, passando a faixa branca, entrando no crepúsculo  De luz onírica e espectral acima da última pureza dos farrapos de neve. A oeste, a cordilheira Teton. Picos nevados terão em breve Um perfil escuro a quebrar constelações. Para lá de que altitude Paira agora o negro ponto? Para lá de que distância olhos doirados Verão novas lonjuras erguerem-se, para marcar um último rabisco de luz?   Ou, tendo provado a finura da atmosfera, será que  Plana sem se mover, numa visão que falece antes De saber que aceitará o limite mortal, E deixar-se ao grande círculo descendente que restaurará A respiração da terra? Da rocha? Da podridão? De outras Coisas tais, e o negrume dum qualquer sonho que agarramos? ESPERANÇA Na orquidácea luz do entardecer, Observa como, d...

Boletim Letras 360º #662

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DO EDITOR Saiba que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajudar a manter o  Letras , sem qualquer custo extra. O seu apoio continua essencial para que este projeto permaneça online. Eugène Ionesco. Foto: Pohlmann LANÇAMENTOS Dois novos livros ampliam a presença do teatro de Eugène Ionesco entre os leitores brasileiros.  1. Encenada pela primeira vez em 1953, Vítimas do dever  é a peça em que Ionesco satiriza o teatro realista ao colocar um inspetor diante de um homem comum, num interrogatório que rapidamente mergulha no absurdo. A busca por um nome esquecido leva o protagonista a questionar sua própria identidade, num jogo de linguagem e poder que escancara a falência do discurso lógico e das convenções dramáticas. O livro tem tradução de Bruno Brandão Daniel, que assina também o texto de prefácio e posfácio mais notas de Gilles Ernst.  Você pode comprar o livro aqui . 2. A cantora careca ...