Entre arquivos e a figura paterna em Visita ao pai, de Cristovão Tezza

Por Douglas Sacramento

Cristovão Tezza. Foto: Renato Parada. Reprodução a partir da Folha de S. Paulo.


 
A literatura na contemporaneidade faz um retorno ao arquivo. Os autores têm retornado às suas próprias genealogias e construído ficção a partir dos materiais deixados e conservados pelos familiares. Ao tratar do verbete “Arquivo”, o livro Indicionário do contemporâneo compreende que existe essa faceta do contemporâneo em “trabalhar com os restos”, resultando num acolhimento “dos espectros”. Na utilização do arquivo, os autores transformam e aglutinam seus materiais no literário. O arquivo está “sujeito a metamorfose”.

É nesse processo de inserir, ampliar e estabelecer diálogos com o arquivo do pai por meio da autoficção que Cristovão Tezza constrói Visita ao pai (2025). O autor, que nasceu em Santa Catarina, escreveu mais de vinte e cinco livros e possui obras publicadas em mais de quinze países, tem como obra mais conhecida e premiada O filho eterno (2007).

Se em 2007 Tezza publicou um livro à volta das demandas dessa paternidade de um filho com síndrome de Down, quase vinte anos depois escreve sobre o próprio pai, João Batista Tezza. Ao morrer prematuramente em um acidente de trânsito, este deixa para a família cadernos que contêm rascunhos de cartas, listas e um diário. 

Durante o período pandêmico, Cristovão Tezza começa a estudar os vinte e seis cadernos e a construir o romance a partir deles, percorrendo o período de 1931 a 1959. O leitor acompanha a saída de casa, a estadia no quartel, o caminho pelos estudos até se formar em Direito, a vida de professor e a construção da família com Elin, a mãe do escritor.

Entre os acontecimentos pessoais se entrelaça a agitação política no Brasil, os governos de Getúlio Vargas e como suas ações repercutem no Sul do Brasil. A narrativa também atravessa a Segunda Guerra Mundial e chega até o governo de Juscelino Kubitschek. 

Enquanto Cristovão Tezza narra a trajetória do pai, analisa as cartas com seu olhar atento ao contemporâneo e as articula com os fatos históricos brasileiros, também constrói uma narrativa sobre si mesmo e o início de sua vida adulta, marcada pela indecisão de fazer faculdade, pela experiência fora do Brasil e com o teatro.

Remexendo arquivos, o pai e a si 

O empreendimento literário de Visita ao pai começa com as delimitações entre o uso do arquivo e a categoria de romance, levando o leitor a questionar a veracidade dos fatos e o quanto de ficção está alinhavada à narrativa. Há todo um movimento de transposição direta dos registros nos cadernos e, em contrapartida, a incorporação de fatos biográficos do autor, o que atesta estarmos diante de uma obra que mapeia o pai, a nação, o próprio autor e as categorias literárias, diluindo essas fronteiras: “A escrita é uma realidade dupla que pouco a pouco substitui os fatos que lhe dão origem” (p. 11).

Este é um romance de fôlego. Estamos diante de um livro que não possui diálogos e é totalmente narrado em paragrafação ao longo de seus mais de quarenta capítulos. O pai é apresentado não sob uma perspectiva de condescendência, mas a partir de questionamentos e tensionamentos. Os discursos impregnados na sociedade emergem nos cadernos do pai e são problematizados pelo filho, a exemplo do racismo, do lugar da mulher no casamento e do antissemitismo.

O “querida mulatinha”, caindo como que do nada, é um flagrante cultural (e linguístico) precioso. A expressão “mulatinha”, historicamente absorvida (mas não absolvida) é usada de uma forma afetiva; há mesmo um traço de orgulho ao representá-la (pelo duplo peso simbólico do piano e do pai engenheiro, num típico processo social compensatório ao “mal de origem”). (p. 134)




João Batista Tezza vivia em uma conjuntura na qual seus atos cotidianos ressoavam na situação econômica e política do país. A trajetória, da saída de casa com pouca instrução para o quartel até a formação em Direito e ser professor de Psicologia da Educação, acompanha as discussões, aberturas e restrições relacionadas às escolhas políticas de quem estava no poder. Ele também mantinha contato com políticos para pedir transferências e desenvolvia estudos sobre o Movimento Integralista. No romance, há muitas passagens dedicadas à burocracia do serviço público, à figura ambígua de Getúlio Vargas e à ausência de posicionamento político em determinados momentos, atitudes que o filho questiona.

“No caso do meu pai, tenho de adivinhar em que pé ele estava; seu silêncio em torno de temas políticos (postura que só mudará nos anos 1950) pode ser de fato uma mudança de rumo e interesse pessoal, inteiro absorvido no seu projeto acadêmico (e mesmo literário, ainda que não o confesse); e pode ser simplesmente cautela, dada a turbulência do momento. A primeira hipótese parece mais verossímil, embora a segunda tenha algum peso por simples instinto de sobrevivência – absorvido na luta miúda cotidiana, meu pai raras vezes revela impulsos de ativista.” (p. 206)

A ascensão social, cultural e econômica de João Batista também perpassa a dimensão política. Acompanhamos um sujeito que, aos poucos, vai perdendo aquilo que havia acumulado. Para o autor, a conversão desses valores representa uma quantia expressiva, inclusive quando comparada àquela que o próprio Cristovão Tezza possuía na mesma idade. Aos poucos, o patrimônio é engolido pelas dívidas que surgem enquanto as escolhas momentâneas, feitas na expectativa de obter mais dinheiro, acabam não resultando em nada. Essas perdas estão relacionadas aos custos de manter uma família e ganhar pouco no trabalho como professor.

Essa crescente educacional e cultural é um dos aspectos mais interessantes do romance. A escrita, inicialmente marcada por muitos problemas e pela oralidade, vai se transformando até chegar, ao final, mais concisa e marcada por questões sociais pungentes que ecoam nos discursos da região Sul até os dias de hoje. A formação superior permite que João Batista Tezza incorpore palavras pouco usuais e até jargões em latim — língua da qual traduziu alguns textos. 

Cristovão Tezza realiza um trabalho minucioso de análise crítica dos ecos das teorias eugenistas e do patriarcado presentes em determinadas situações registradas nos cadernos do pai. Quanto mais elevada a posição social do pai, sustentada por seus capitais simbólicos diversos, mais esses discursos surgem no texto.

Mas, ao trazer à tona o espectro do pai por meio do arquivo, Tezza não deixa de narrar a si mesmo e de comparar seus atos e percursos com os dessa figura. O pai não ocupa um pedestal divino, ao contrário, os vinte e seis cadernos o humanizam e o situam em seu tempo e espaço. A narrativa em primeira pessoa, tão pessoal e repleta de pensamentos e pontos de vista, também funciona como contraponto para pensar o Brasil no início da vida adulta do autor, as escutas anarquistas e sua saída do país. Assim, embora sejam figuras distintas, pai e filho se aproximam e se contrapõem. Há trechos com ecos psicanalíticos nos quais, ao elaborar a figura paterna, o escritor parece colocar a si mesmo no divã, em um movimento de reflexão e elaboração dessa relação.

“Ainda que, relembrando a trajetória, eu tenha de pensar sob outra perspectiva, menos pretensiosa, menos retumbante, muito mais simples, mais corriqueira, às vezes tranquila, até alegre, o afeto da essência das coisas que todos os dias nos arrastam sem escândalo para o momento seguinte: o que meu pai, de fato, queria? Qual a transcendência sonhada, o sopro que o movia? Mas eu tenho mesmo o direito de fazer essa pergunta? Usando o gps dos meus dias, de que lugar eu faço a exigência de um passado melhor? Por que, pensando em mim mesmo, desabo da própria imagem e não sei a resposta: o que me move? O minuto seguinte, ou o paraíso? A literatura, essas palavras no papel? Não faça retórica, digo a mim mesmo. Volte ao seu pai, à sua mãe: está tudo ali, imagino. Saiba ler.” (p. 346-347) 

Visita ao pai evidencia essas conexões entre literatura e arquivo, nação e família. São temáticas atuais, em voga e reproduzidas sem a devida problematização, até se tornarem jargões. Cristovão Tezza problematiza essas questões, questiona o pai e a si mesmo, sem deixar de lado a figura do filho que viveu, ainda na infância, o luto pela perda desse pai. Conciso e muito elaborado, o romance se destaca entre os livros lançados nos últimos anos. A obra se apresenta tanto aos novos leitores quanto aos leitores assíduos da literatura brasileira contemporânea, reafirmando o lugar reluzente e necessário de Tezza nessa constelação literária nacional.


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Visita ao pai
Cristovão Tezza
Companhia das Letras, 2025
448p.

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