O talento marginal: uma breve reflexão do conto ”O passageiro da primeira classe”, de Tchekhov

Por Juliano Pedro Siqueira 

Édouard Vuillard, O vagão de primeira classe. 


O ser humano, em sua interação social, é um inveterado carente em busca de aprovação e reconhecimento. Não importa quão habilidoso um indivíduo seja ou o esforço que ele despenda para atingir o sucesso pessoal, se não houver a contrapartida da validação alheia e os aplausos daqueles que o cercam. Basta olhar para algumas instituições espalhadas pelo mundo, que resolveram premiar personalidades que contribuíram para o progresso humano nas mais diversas categorias. Imagina um escritor. O desejo de qualquer um é contemplar o trabalho laureado por um Nobel, Pulitzer ou até mesmo ter o nome imortalizado em alguma Academia de Letras. Mas a história revela suas contradições quando o assunto é talento versus reconhecimento.

Tomei o conto “O passageiro da primeira classe” de Anton Tchekhov para refletir como pode ser frustrante ou traumático quando uma pessoa dotada de talento ou exímia habilidade torna-se, de repente, invisível aos olhos humanos. Não somente! Como lidar com o sucesso de criaturas que são julgadas fúteis, sem apresentar contribuição expressiva, mas que obtiveram a estatura de celebridade? Não são poucos os homens e mulheres que dedicam vidas inteiras ao árduo trabalho em nome da ciência, mas, com o passar do tempo, são esquecidos da memória popular como borrachas que deslizam em letras inscritas em papéis. No referido conto, um passageiro de nome Krikunov ocupa a primeira classe de um trem. E, após um farto almoço, resolve iniciar uma conversa com o passageiro à sua frente. Apesar de se ver como um grande engenheiro, cujos trabalhos contribuíram para importantes melhorias urbanas, ninguém mais é capaz de reconhecê-lo — seja caminhando, embarcado em um trem ou mesmo depois da morte.

As queixas e as lamúrias do passageiro soam legítimas, contudo, são acompanhadas por certa ingenuidade. A vida de muito labor, estudos, viagens e engenhos não lhe ensinou que o sucesso é tão incerto — e é aconselhável que o encaremos assim — quanto à existência. Por sua vez, o outro passageiro comporta-se com mais astúcia e leveza. Observa-o silenciosamente, a fala em ritmo acelerado, como se estivesse arrotando o indigesto almoço. Krikunov continua listando exemplos de criaturas insipientes, acríticas e socialmente irrelevantes, ilustrando a incompreensão de como elas ascenderam ao nível de celebridades, mesmo apresentando habilidades questionáveis e frívolas. 

Nas palavras da própria personagem, sua juventude foi dedicada à busca da glória humana por todos os feitos realizados enquanto engenheiro. Seu lamento rumina as ilusões de uma vida excessivamente dedicada ao desenvolvimento das cidades pelas quais trabalhou, para, no final, ver-se condenado ao ostracismo. Ele resiste em aceitar as contingências da vida, que concedem a glória a indivíduos pouco sofisticados. Aceitar a realidade para o passageiro de primeira classe sugere contrariar uma lógica que, a seus olhos, lhe parecia óbvia: que os títulos e louros pertenceriam apenas aos homens brilhantes.  

Não satisfeito, o passageiro reclamante relata uma aventura um tanto cômica, que corrobora com sua desilusão. Ao se envolver com uma cantora barata, ele fica estupefato com a popularidade que ela possuía, fazendo-o se sentir envergonhado por tamanha vileza. O momento parecia ser do engenheiro — haja vista ser o personagem mais ilustre —, mas foi colocado à margem, vendo todas as honras que esperava obter, sendo concedida à fulana. Todos estavam interessados em seus dotes artísticos e na firula produzida por ela. Krikunov ainda apostou numa possível generosidade e sensatez da imprensa local, que realizou a cobertura jornalística do evento que incluía a inauguração da ponte em que construiu. Ledo engano! No dia seguinte, os jornais mencionaram seu nome sem nenhuma honra ou destaque; tão inexpressíveis como nota de rodapé. 

O episódio é o golpe final no seu orgulho ferido. Como é inútil o talento se os meios para atingir a glória são controversos e incompreensíveis? Mas Krikunov não estava sozinho nessa viagem solitária e anônima. O homem que ouviu atentamente as suas lamentações e desgostos com sua jornada profissional, também era um talentoso e importante acadêmico; porém, tão marginal quanto seu interlocutor. Seu vizinho de diálogo era um famoso ofuscado pela amnésia popular. Diante da dupla frustração, Krikunov — que nunca ouviu falar em seu nome —, e o seu cúmplice caíram em gargalhadas.

Tchekhov compreendia as armadilhas e o peso que a fama e a glória custam ao coração humano. Àquele que luta apenas pela fama, remará exaustivamente contra uma corrente adversa e turbulenta, formada por grupos, massas e movimentos que utilizam critérios contraditórios ao dar honra e popularidade a quem não possui competências indispensáveis ou não apresenta resultados de grande vulto. Quantos escritores, cientistas, economistas, médicos e segue a lista, com todo brilhantismo e méritos incontestáveis, nunca foram contemplados por prêmios ou honras públicas? E não é difícil encontrar alguém que se disponha a promover um entretenimento chulo e vulgar, ser abraçado por uma massa delirante; e, do dia para a noite, fazê-lo um astro acompanhado por glória e bajulação. 

Segundo Nietzsche, ele se via como um homem póstumo. Foi recluso pensador, cujas obras foram financiadas por recursos próprios. Sem correspondência amorosa, editorial e pessoal, suas obras soaram como um grande trovão apenas após a sua morte. Mas nem todos os gênios, talentosos e dedicados, tiveram a mesma fortuna que o pensador alemão.

Jesus, certa vez, dirigiu-se aos discípulos, ensinando-lhes que o profeta nunca encontra honra em meio ao seu povo e entre a sua parentela (Mt 13:57). A desonra faz parte da desclassificação ou reprovação de uma ideia, pensamento, posse e, principalmente, quando envolve talentos ou grandes habilidades. Os dois acadêmicos do trem de primeira classe estavam em local de destaque no vagão, mas ninguém os reconheceria. Ainda que começassem a abordar o maior número de pessoas nas ruas, narrando suas façanhas e contribuições, dando provas da importância dos seus nomes para a ciência, de nada valeria. Continuariam a perambular com suas vívidas lembranças de um passado construído sobre um punhado de ilusões.  

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