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A épica do naufrágio no Ulysses de James Joyce

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Por Stefano Cazzanelli Escrito entre 1914 e 1921 e publicado em 1922, Ulysses , de Joyce, é um dos livros mais difíceis já escritos. Não é um romance – embora Joyce insistisse em chamá-lo de romance – nem mesmo um ensaio; não é uma épica ou jornalismo. É tudo isso e sua superação: uma confluência de estilos, um bulício de personagens, sensações, lugares sem pés ou cabeça, em que tudo flui; um turbilhão onde se perder: a Caríbdis que Homero lançou contra Ulisses, Joyce lança para nós sem piedade. As personagens principais, Bloom e Stephen, são anti-heróis, derrotados; vítimas do mundo moderno em que os grandes ideais não têm direito à cidadania e em que apenas triunfa o decadente cotidiano. Paul Bourget, psicólogo e crítico literário contemporâneo de Joyce – muito influente nas teses de Nietzsche sobre o niilismo – definiu como decadente a literatura em que a parte predomina sobre o todo, a página sobre o livro. Flaubert, Stendhal ou Baudelaire foram exemplos desse espírit...

A paga dos roteiristas. William Faulkner e o cinema

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Por Mauricio Hammer “Continuaram. O último grão de neve se desfez e agora contemplavam uma cena que parecia saída de um Dante einsensteniano.” William Faulkner, As palmeiras selvagens “Temos por exemplo algumas folhas; e embora Juliette não tenha muito em comum com a heroína de Faulkner, nossas folhas podem se tornar tão dramáticas como essas palmeiras selvagens.” Jean-Luc Godard, Duas ou três coisas que sei dela William Faulkner, 1940. O descobridor de escritores “Em finais dos anos vinte, Howard Hawks leu um romance que o impressionou profundamente. O livro se chamava Paga de soldado e relatava a história de um tenente da Real Força Aérea que, em consequência de um ferimento sofrido durante a Primeira Guerra Mundial, padecia de uma cegueira degenerativa e era incapaz de recordar seu passado. A maneira objetiva e enérgica como expressava a ambiguidade da glória comoveu o diretor, que havia sido subtenente da força área estadunidense. Já então, Hawks gozava...

Boletim Letras 360º #365

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DO EDITOR 1. Na chamada para seleção de novos colaboradores para o Letras in.verso e re.verso, dez candidatos realizaram corretamente sua inscrição. A leitura do material enviado favoreceu a inclusão de três novos nomes que, a partir de março, passarão a se apresentar mensalmente por aqui. São eles: Felipe de Moraes, Maria Louzada e Paula Luersen. O leitor esteja atento porque dessas mãos sairão, certamente, boa coisa para ampliar ainda mais o espaço do blog na web .  2. Aproveito a ocasião para lembrar que, durante o ano inteiro, o Letras está aberto a receber textos de eventuais colaboradores. Você pode ler a proposta editorial aqui e preparar seu texto conforme essas orientações . Será um prazer ler seu texto e, quiçá, publicá-lo. 3. Anualmente, há três anos, o blog realiza um bazar na página no Facebook para vender alguns livros da biblioteca. Algumas peças do bazar de 2020 já estão disponíveis desde esta semana. Para saber quais livros são comercializados, co...

George Steiner, um mestre da literatura comparada

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Por Jordi Llovet Antes de entrar em contato com as grandes correntes da crítica literária do século XX, George Steiner (1929-2020) havia sido criado e educado em meios onde se falava e escrevia em três idiomas: inglês, alemão e francês. Esse poliglotismo fundacional na vida de Steiner foi o que mais tarde, em um de seus livros mais minuciosos e bem urdidos, Depois de Babel , permitiu-lhe não apenas praticar uma defesa da linguagem de acordo com a tradição que parte de Wilhelm von Humboldt e dos escritores do período romântico, mas também considerar que não havia melhor definição de cultura humana, como diversidade harmoniosa, do que aquela gerada a partir da multiplicação e dispersão de línguas. A admiração pelo mito de Babel, presente em todo o seu trabalho, permitiu a Steiner observar com suspeita todos os discursos e culturas que poderiam ter sido gerados em um só idioma. Sua ideia sempre foi que toda obra de arte da linguagem, como tal, fosse incorporada a um legad...

Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral

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Por Pedro Fernandes O escritor Bruno Vieira Amaral. Foto: Vitorino Coragem. A falibilidade da memória e o embate do homem contra o esquecimento integram a literatura desde suas primeiras formas. Na Ilíada e na Odisseia , os dois textos fundadores de toda a literatura ocidental, os dois topos comparecem de forma variada: é a base de sustentação da exteriorização dos acontecimentos pela voz enunciativa e, por vezes tema da história. O que se conta na epopeia é produto da memória e é às musas que o aedo invoca pela perenidade e justa medida de sua manifestação; por sua vez, Aquiles é quem, sabedor das duas possibilidades reservadas para o seu destino, escolhe passar para a eternidade pelos seus feitos, pela força e pela honra. Se durante longo tempo o homem acreditou no absolutismo da verdade, primeiro pelas suas crenças, depois pela história e agora pela ciência, o que, por sua vez, estabeleceram maneiras de encontrar na memória seu ancoradouro, a busca pela sobrepos...

Jojo Rabbit, de Taika Waititi

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Por Pedro Fernandes Jojo Rabbit é, para um diretor cuja filmografia inclui algumas das mais recentes adaptações das HQs Marvel para o cinema ou a feitura de filmes menores dos estúdios Disney, um ponto fora da reta. Não é apenas por ser sua saída da zona de conforto que é dar vida a um universo cuja existência prescinde mais de comandar uma extensa e criativa equipe técnica; é por ingressar no território que não permite unanimidades. Não é o caso de os blockbusters atuarem como um fenômeno unânime, mas as dissidências aparentemente são menores, visto que são produções cujos interessados guardam certa correlação de expectativas. As diferenças são ainda mais acentuadas se repararmos que o filme de 2019 não apenas foge desse padrão como revisita um dos temas mais polêmicos e repugnantes na nossa curta história das ideologias: o nazismo de Adolf Hitler e seu partido. Situado entre as frágeis fronteiras do humor negro, este trabalho de Waititi, que é baseado no livro O céu que...