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Boletim Letras 360º #368

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DO EDITOR 1. Na edição 364 deste Boletim, falei que o leitor passaria a encontrar textos de novos colaboradores aqui no Letras in.verso e re.verso. Foi a estreia de dois nomes dos selecionados da última chamada realizada em janeiro de 2020: Maria Louzada e Paula Luersen. Na semana seguinte, essa breve maratona de estreias termina com chegada de outros nomes. 2. A participação no blog, volto a lembrar, é aberta a todo autor que guarde bons textos e queira compartilhar com novos leitores. Para saber como enviar seu trabalho basta visitar aqui; encontrará todas as informações e normas para adequação dos textos. 3. Bom, e uma semana após o Carnaval, parece que enfim voltamos ao ritmo de um movimentado ano. Este Boletim reúne informações disponibilizadas (ou não) na página do Letras no Facebook. Obrigado pela companhia e, boas leituras! A obra de João Cabral de Melo (imagem) é homenageada na edição 20 da revista 7faces .  Foto: Antonio Augusto Fontes. HOMENA...

Marca, memória e literatura

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Por Paula Luersen Em 28 de março de 1941, Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e entrou no rio Ouse. O marido, Leonard Woolf, era obsessivamente meticuloso, e manteve na vida adulta um diário no qual registrava todos os dias as refeições e a quilometragem do carro. Aparentemente, não houve nenhuma diferença no dia em que sua mulher se suicidou: ele registrou a quilometragem do carro. Mas, diz a biógrafa Victoria Glendinning, a página dessa data está borrada, com “uma mancha amarela pardacenta que foi esfregada ou enxugada. Podia ser chá, café ou lágrimas. É o único borrão em todos os anos de um diário impecável”. (James Wood)      Uma mancha isolada em um diário acurado. Uma marca que sofreu a tentativa de apagamento, borrada e enxugada, como para ser esquecida. Não se sabe sua origem ou sua exata constituição – chá, café, lágrimas? Dela só se sabe que permanece, representando um elemento de diferença em um caderno que reunia a catalogação obsessiva de...

Ferdydurke, de Witold Gombrowicz

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Por Pedro Fernandes Basta percorrer o olhar desde o século de aparição e consolidação do romance até os dias vigentes para compreender o domínio da forma no imaginário criativo da literatura universal. Essa influência levou pensadores como György Lukács a pretendê-lo a epopeia da civilização ocidental. As razões para tanto não estão apenas na atualização do protótipo grego, mas na presença do romance na configuração dos modelos sociais vigentes e, claro está, na predominância seja entre criadores literários, seja entre leitores. Embora questionável à luz das leituras posteriores sobre as suspeitas da predominância da épica entre os gregos, a tese do pensador húngaro guarda implicações fundamentais para se pensar essa forma literária, sobretudo pela compreensão do romance enquanto tentativa de alcance de uma totalidade perdida. É esse movimento um dos responsáveis pela força da forma, manifesta no contínuo retrabalhar da sua estrutura e no contínuo esforço dos escritores e...

Seduzida e abandonada, de Pietro Germi

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Por Maria Louzada Pietro Germi, o grande realizador italiano, volta a se encontrar com a sua centelha de criatividade original que deriva nos anos 1960 neste Sedotta e Abbandonata . Trata-se de uma comédia, mas o assunto é sério, muito sério, e a visão do diretor italiano também, que ousa filmar uma comédia de costumes sobre a obstinada hipocrisia humana nos lugares mais remotos. Situações ao mesmo tempo hilariantes e que nos coloca cara a cara com a cruel realidade das mulheres num vilarejo da Sicília. Sem voz, sem direito ao próprio desejo ou às próprias escolhas, prisioneiras de pai, mãe, da sociedade patriarcal, de todos ao redor.  Agnese (Stefania Sandrelli), uma siciliana de dezesseis anos apenas, é seduzida por Peppino (Aldo Puglisi), noivo de sua irmã mais velha. Ela acaba engravidando. Quando a mãe (Lola Braccini) descobre conta logo para o marido don Vincenzo (Saro Urzì) que obriga o rapaz a se casar com Agnese, mas ele foge. O pai se esforça então para, a...

A resposta que não vem

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Por Tiago D. Oliveira A convivência com os livros aproxima-nos paulatinamente de nós mesmos. É impressionante como a cada leitura conseguimos direcionar, mesmo que aleatoriamente, a narrativa ou versos, para a direção dos nossos dias. É como se cada livro estivesse em escambo com o desconhecido para pintar uma antiga sensação que consegue sempre força e renovação a cada página virada. O desconhecido. Assim, o que se guarda dos dias é também medido pelos títulos que nos observam na estante ou ainda em pensamentos. À vida. Em Meu coração de pedra-pomes , de Juliana Frank, encontramos este escambo com o desconhecido. Wanda, ou melhor, Lawanda, como prefere ser chamada, é uma jovem de 19 anos que tem uma deficiência mental e trabalha em um hospital, a partir de uma vaga conseguida por cotas, como faxineira e mora em um quartinho alugado pela tia. Tem o hábito de cultivar pensamentos excêntricos, guardar besouros em uma caixa no armário e costurar borboletas em suas calcin...

Sobre Minha Luta, de Karl Ove Knausgård

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  Por Davi Lopes Villaça Cheguei ao fim do terceiro volume da série Minha luta tentando entender o que me atraiu na escrita do norueguês Karl Ove Knausgård. No que consiste sua estranha força poética? Acho que é preciso considerar, antes de mais nada, o tipo de relação que essa obra, exemplo recente de autoficção, estabelece com o tempo e a memória. No início do primeiro volume, o autor recorda um episódio em que, ainda criança, vê o pai trabalhar no jardim. A partir da imagem desse homem ele estabelece uma ponte entre o seu eu de antes e o seu eu de agora: “Quando meu pai erguia a marreta acima da cabeça e a deixava cair sobre a rocha naquele entardecer de primavera da metade da década de 1970, fazia isso num mundo que conhecia bem e que lhe inspirava confiança. Somente ao atingir aquela mesma idade eu aprendi que é preciso pagar um preço por isso. Quando sua perspectiva de mundo se amplia, não mitiga apenas a dor que acarreta, mas também o sentido dessa dor. Comp...