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O fim da verdade em Dostoiévski-trip, de Vladímir Sorókin

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Por Joaquim Serra Vladímir Sorókin. Foto: Anton Zemlyanoy Em Dostoiévski-trip , Vladímir Sorókin não pessoaliza nada. Nomeia personagens por gênero, classificando-os como se fossem números de série. A abertura da peça é realista, dialoga com temas atuais, mas, a todo o tempo, há em suas falas uma abertura para um subtexto, “Os tempos estão mudando para pior” (p. 7), diz um dos personagens. O Homem 2 é responsável por essa abertura; ele sentencia: “acreditar de olhos fechados. Em nosso tempo. Difícil e contraditório” (p. 9). Então a droga entra, e a “viagem” do título tem vida dupla para aqueles que usam. É então que as verdades sagradas de Mýchkin, personagem de Dostoiévski inspirado na vida de Cristo e na inocência de um Dom Quixote, são realçadas de um outro ponto de vista. Há uma ironia a cada vez que um personagem evoca um escritor. A droga, que tem nome de escritores – assim como os apelidos que muitas drogas têm –, ganha dupla potência: quando falam dos escritores, os person...

A amizade interrompida de Simone de Beauvoir

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Por Lourdes Ventura Simone de Beauvoir. Foto: Robert Doisneau A escritora e intelectual Simone de Beauvoir (Paris, 1908 ― 1986) se tornou uma figura paradigmática a partir de  O segundo sexo  (1949), livro se tornou um marco universal no feminismo. Ganhou o Prêmio Goncourt com o romance Os mandarins em 1954, sendo a terceira mulher a obtê-lo, depois de Elsa Triolet e Béatrix Beck. Filósofa, romancista, memorialista, ativista, ela participou dos debates e lutas mais importantes do século XX, ao lado de Jean-Paul Sartre.  Dela, a editora Record publicou  As inseperáveis , romance póstumo que narra a amizade, desde a infância, entre duas jovens que desejam viver a própria vida fora das convenções de seu tempo e de seu entorno burguês.   Os desafios das personagens Sylvie e Andrée Gallard, a sua educação sentimental, os seus desejos intelectuais, as suas crises espirituais coincidirão ponto a ponto com a história da profunda cumplicidade en...

Boletim Letras 360º #420

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    DO EDITOR   1. Saudações! Durante a semana chegaram ao blog três novos colunistas dos selecionados na chamada pública realizada no mês de janeiro. Os textos de André Cupone Gatti, Fábio Roberto Ferreira Barreto e Marcelo Moraes Caetano aguardam a leitura se ainda o caro leitor não o fez.   2. Ano a ano, são disponibilizados, na página do Letras no Facebook, alguns livros para venda. O interesse do bazar é levantar os valores com os custos de pagamento do domínio do blog.  3. A lista de 2021 já começou a ser atualizada. Veja aqui e, se possível ajude ao blog ― lembre que a divulgação sua tem um efeito importante. Caso não disponha de acesso ao Facebook, basta escrever ao nosso e-mail blogletras@yahoo.com.br .   4. Obrigado pela atenção. Abaixo, as notícias da apresentadas na página do Letras no Facebook durante a primeira semana de março que agora termina. Boas leituras! João Cabral de Melo Neto. Um dos registros da fotobiografia que reúne mais de cinco...

Normopatia ou normose: quando ser normal é o problema. Traços da farsa social acusada na literatura

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Por Marcelo Moraes Caetano Ilustração: Andrea Ucini   A normose é a estagnação em práticas e pensamentos que muitas vezes são incentivados e aplaudidos pela maioria da sociedade: aquilo que é “normal”, em muitíssimos casos. “Normal” a partir de que perspectivas? Da perspectiva do caos. “Normal” do ponto de vista dos comportamentos e dos pensamentos que guiam pessoas e sociedades, ainda que ao caos. “Normal” do ponto de vista de algo que pode até ser sido bom e eficaz num momento do passado das sociedades, mas que hoje já não faz sentido – o que ocasiona o caos. “Normal” do ponto de vista de apenas uma parcela (às vezes ínfima) da sociedade, sem estender seus benefícios a camadas mais vastas e diversas dessa mesma sociedade, criando o caldeamento necessário – para o caos. Esses “normais” estagnantes e caóticos, que impedem a instauração e a manutenção da paz, são exatamente a NORMOSE. O sufixo -OSE significa basicamente desgaste, tanto nos conceitos biológicos e fisiológicos, como...

Nem todas as baleias voam, de Afonso Cruz

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Por Pedro Fernandes Afonso Cruz. Foto: Vitorino Coragem.   Certamente não foi Julio Cortázar quem pensou o romance como um jogo de montar, mas foi quem executou com maestria a ideia quando escreveu O jogo da amarelinha . Quer dizer, o escritor apenas demonstrou estruturalmente o que é, afinal de contas, em menor ou maior grau toda a prosa romanesca. No seu caso, ao transferir para o leitor parte significativa da responsabilidade por este trabalho reafirmou a ideia segundo a qual toda obra se constitui entre a escrita e a leitura. A maneira inusual fez com que todas as obras que vieram depois, e que admitem esse tratamento inventivo logo nos destaque para o feito do escritor argentino.   Muito distante do que fez Cortázar, porque o plano narrativo aparece determinado pelos fios internos da narração, mas muito próximo pela ideia do jogo de montar, Nem todas as baleias voam é desses romances que nos surpreendem a cada passagem. E aqui duplamente: pelas inumações poéticas que ir...

Umas palavras sobre uma breve fase de um grande poeta: Ferreira Gullar e o Centro Popular de Cultura

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Por Fábio Roberto Ferreira Barreto Em março de 1962, vinha a lume o Anteprojeto de Manifesto do Centro Popular de Cultura ; embora suas atividades cronologicamente tenham se iniciado em 1961. Para rememorar o CPC, bem como para comemorar minha estreia como colunista no Letras in.verso e re.verso , escrevo sobre o poeta Ferreira Gullar e sua fase cepecista. Roberto Freire e Ferreira Gullar durante o lançamento de Cultura popular em questão  no CPC da UNE, 1963.   Apesar de não se enquadrar, Ferreira Gullar em um quadro: fase cepecista   Ferreira Gullar não é poeta que se enquadre. O estudioso João Luiz Lafetá, em “Traduzir-se – ensaio sobre a poesia de Ferreira Gullar”, afirma: “dentro do clima esteticista da Geração de 45, passou pela ruptura do Concretismo e do Neoconcretismo, pelo discurso populista do CPC [Centro Popular de Cultura] e pelo demorado, ainda inconcluso, processo atual de travessia de uma situação difícil para a criação poética”. Alfredo Bosi, vincu...