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Machado ganha diferentes vozes em novas traduções de Memórias Póstumas de Brás Cubas

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Por Charles A. Perrone Diego Rivera. El joven de la estilográfica, 1914.   Não é sempre que duas traduções de uma grande obra da literatura ocidental aparecem simultaneamente; contudo, é exatamente isso o que ocorreu com o catálogo do verão de 2020 e a publicação de novas versões em inglês das Memórias Póstumas de Brás Cubas , de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Machado foi o presidente inaugural da Academia Brasileira de Letras, e, mais importante, é amplamente considerado o maior escritor de prosa ficcional na América Latina do século XIX, quiçá de todas as épocas. Brás Cubas foi um ponto de virada em sua carreira, marcando um afastamento da narrativa convencional dos romances românticos iniciais rumo a um realismo “sui generis” que não apenas o fez se destacar no Brasil de sua época, mas também o singularizou em meio à maior parte dos seus contemporâneos em qualquer lugar do mundo. A coincidência temporal e o interesse literário compartilhado convidam à comparação e ...

Boletim Letras 360º #507

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, graças as pequenas, mas variadas formas de colaboração durante todo ano, conseguimos prover a renovação do domínio e hospedagem on-line para o Letras in.verso e re.verso .   2. Aos editores que disponibilizaram seu catálogo para o envio de livros ao clube de apoios ao Letras, aos leitores mais assíduos e aos que esporadicamente nos ajudam, nos divulgam, aos amigos, reiteramos os agradecimentos por isso. Essa força é, antes tudo, reanimadora; são bons ventos para isso que aqui desempenhamos livre e amorosamente. 3. As formas de ajudar permanecem ativas. Vencemos um ano, abre-se outro. Para saber melhor sobre as formas de apoiar nosso trabalho, visite aqui . E lembro que: a aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste Boletim garante a você desconto e ajuda ao blog sem pagar nada mais por isso .   4. Bom final de semana com boas leituras! Carson Mccullers, 1947. Foto: Henri Cartier-Bresson   LANÇAMENTOS ...

Sobre a interpretação¹

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Por Ricardo Piglia Ricardo Piglia. Foto: Sebastián Rodeiro   O que significa interpretar um conto? Muitos chamaram a atenção para a maneira como Kafka lia A metamorfose em voz alta: o riso interrompia sua leitura. Por sua vez, na gravação de alguns fragmentos de Finnegans Wake , a voz de Joyce salta de uma consoante para outra, com um tom humorístico, meio circense, como se nos avisasse que se trata de um relato cômico.   Em seu romance Cicatrizes Saer interpreta — digamos — o conto “Exame da obra de Herbert Quain” de Borges. A história descreve o projeto de um romance “regressivo, ramificado” onde todas as alternativas possíveis de uma história são narradas simultaneamente. Embora, tanto quanto me lembro, os críticos não tenham notado essa relação, é claro que Saer se propôs a escrever essa ficção potencial. Os capítulos de Cicatrizes repetem o nome do romance de Quain (“Abril”, “Março”) e narram quatro desdobramentos possíveis — e simultâneos — de uma mesma trama, com sua...

Para Michel Houellebecq a humanidade está condenada

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Por Mercedes Estramil Michel Houellebecq. Foto: Barbara d’Alessandri   No 2019 pré-pandêmico, Michel Houellebecq recebeu a Legião de Honra de um presidente que não admira, Emmanuel Macron. Este último, que também não o admira, o descreveu como um “romântico perdido em um mundo materialista”. É uma definição curiosa para esse francês anti-sistema, islamofóbico (misantrópico se ampliarmos o zoom), que lança bombas linguísticas contra toda ortodoxia de pensamento correto. Sua defesa a Donald Trump no artigo “Trump é um bom presidente” é bem conhecida, embora envolta em fina ironia; seus ataques à União Europeia; e sua preferência pelo presidencialismo vitalício e pela democracia direta, eliminando o sistema parlamentarista. Sua amizade com o ex-presidente Sarkozy e com o escritor Frédéric Beigbeder, suas coincidências com Julian Assange, ou a amizade que o uniu a uma das vítimas dos ataques de 2015 contra o semanário Charlie Hebdo também é bem conhecida. Para a literatura, nada disso...

Antonio Di Benedetto: a distração e o esquecimento

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  Por Jimena Néspolo Antonio Di Benedetto. Arquivo Cidade de Mendoza.   Surpreende, a partir da obra narrativa de Antonio Di Benedetto (Mendoza, 1922-Buenos Aires, 1986), sua vocação para desarticular as formas sem rituais que organizam a afetação. O seu é um caminho discreto, que aposta na coerência filosófica e num distanciamento reflexivo capaz de trair qualquer impostura. Há algo da ordem do estranhamento persistente do mundo, que espreita na seleção lexical e no fraseado, mesmo nos textos jornalísticos que apostam na comunicação plena.   Embora Zama (1956) seja uma de suas ficções mais conhecidas, pode ser El pentagóno. Novela en forma de cuentos [O pentágono. Romance em forma de contos] que melhor condensa essa busca. O “livro mais misterioso da literatura argentina” — segundo Sergio Chejfec 1 — foi publicado pelas Ediciones Doble P, em 1955, embora tenha sido escrito na década anterior. É um romance caótico e labiríntico onde todas as alternativas de enredo são ...