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Boletim Letras 360º #627

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DO EDITOR   Olá, leitores! Nesta semana concluímos duas atualizações importantes para o nosso projeto:   a) o nosso correio eletrônico mudou, agora, atendemos através do letrasinverso@gmail.com — salve nos seus contatos;   b) modificamos o nosso sistema de apoios, que passou a ser contínuo com sorteio de livros a cada grupo de seis apoiadores. Saiba todos os detalhes disso por aqui . Um excelente final de semana!   Imre Kertész. Foto: Olivier Mark LANÇAMENTOS   O regresso do mercado editorial brasileiro à obra do húngaro Imre Kertész .   Lançado originalmente em 1975, Ausência de destino é um dos grandes livros da literatura de testemunho do Holocausto. Escrito pelo húngaro Imre Kertész, Prêmio Nobel de Literatura, o romance é baseado na experiência do autor, que foi ele mesmo sobrevivente de campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A obra estava fora de catálogo no Brasil e recebeu nova edição com tradução e posfácio de Paulo ...

Fiódor Dostoiévski diante do pelotão de fuzilamento

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Por Javier Memba A cerimônia de execução de Dostoiévski e outros condenados. Desenho de Boris Pokrovsky, 1849   No despontar do amanhecer de 22 de dezembro de 1849, Fiódor Dostoiévski, com oito camaradas do Círculo Petrachévski, foi colocado em uma carroça com destino à Praça Semiónovskova, em São Petersburgo. Aí os aguarda o pelotão de fuzilamento. O mais confiante dos nove réus está de bom humor, solta piada. Numa demonstração de coragem, ele observa que não é aconselhável chegar atrasado ao compromisso. Nem seus companheiros nem os soldados — aquele que conduz a carroça, os que guardam os condenados — acham graça. Fazer parte de um pelotão de fuzilamento é uma experiência tão triste que se recorrem aos batalhões penais ​​ para se conseguir fuziladores.   Na São Petersburgo de Nicolau I, é costume cobrir a cabeça dos prisioneiros para impedir de ver o último gesto dos carrascos para o condenado. Até os soldados mais veteranos, curtidos a sangue e fogo em mil batalhas, dizem...

Na colônia penal e a tríade da máquina: medo, castigo e veneração

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Por Juliano Pedro Siqueira   A novela Na colônia penal (1914) de Franz Kafka, trata-se de um texto curto, mas não menos denso em sua proposta crítica. Após um primeiro contato, certamente o leitor sairá impactado por mais um cenário kafkiano, cercado de absurdos e labirintos existenciais. Aliás, podemos dizer que se trata de uma narrativa terrivelmente perturbadora. Não diferente de outros trabalhos igualmente grandiosos, como O castelo e O processo . Em Na colônia penal , as poucas personagens que compõe a novela, cujos nomes não são mencionados, protagonizam o espetáculo de horrores em nome do poder. A trama inicia-se com a figura tirânica de um oficial, que discorre de forma deslumbrante a eficácia de uma máquina cuja finalidade é torturar insurgentes da lei local. A dita máquina, composta por três partes principais (cama, desenhador e rastelo), crivava marcas nos corpos dos castigados, inscrevendo-lhes sobre a carne, os crimes que cometiam.     Não estranho ao esti...

Amigos e estranhos é promessa de um talentoso diretor australiano

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Por Alonso Díaz de la Vega   É possível que com a morte de Jean-Luc Godard, que nos ensinou a dialogar não apenas com os personagens e enredos dos filmes, mas com as imagens e os significados produzidos por suas combinações, a busca por um cinema do futuro tenha se acentuado. Em termos bem literais, há e continuará a haver pessoas interpretando outras pessoas, sejam elas inventadas ou não, e alguém que vai dirigir essas cenas e fotografá-las; também haverá aqueles que juntarão as cenas resultantes para moldar narrativas. Porém, o que as grandes indústrias prometem, com suas exceções cada vez mais raras, é continuar esse processo repetindo os mesmos planos, a mesma musicalização que nos diz o que sentir e quando, as mesmas tramas onde os heróis vencem as sombras com algumas dificuldades, quase sempre as mesmas. Se este é o cinema do futuro, o que Godard e seus colegas, tanto conhecidos quanto ainda não descobertos — principalmente descobertos —, representa algumas possibilidades alé...

Os conselhos dos escritores. Prescrição e encenação

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Por Patricio Pron Pintura: Albert Anker   1 “O único defeito dos escritores realmente bons é que eles quase sempre fazem com que muitos escritores ruins ou medianos apareçam”, escreveu Georg Christoph Lichtenberg. O escritor uruguaio Horacio Quiroga recomendou, ao contrário: “Acredite em um mestre (Poe, Maupassant, Kipling, Tchekhov) como no próprio Deus”. Nosso tempo não possui o patrimônio do desejo de converter cada atividade em uma sucessão limitada de etapas previsíveis que podem ser imitadas. Mas parece ser o primeiro a ter projetado esse desejo para o campo da produção artística. Também é o primeiro a acreditar que é possível dar satisfação plena e efetiva a esse desejo.   Em 2010, o jornal inglês The Guardian iniciou uma série de entrevistas com escritores britânicos nas quais eles abordavam suas práticas e/ou davam “conselhos de escrita” aos seus leitores, geralmente na forma de um decálogo. Seu antecedente foi “A filosofia da composição”, que Edgar Allan Poe publico...

Manhattan Transfer, um romance em forma de filme

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Por Rodolfo Elías John Dos Passos. Foto: Philippe Halsman.   “If I can make it there,/ I’m gonna make it anywhere./  It’s up to you/ New York, New York”, canta Frank Sinatra em uma de suas canções mais conhecidas: “Se eu conseguir chegar lá,/ Conseguirei chegar a qualquer lugar./ Só depende de você,/ Nova York, Nova York”. A cidade que já era mesmo antes da Primeira Guerra Mundial uma cidade vibrante é onde se passa Manhattan Transfer , romance de John Dos Passos.   Manhattan Transfer foi publicado há cem anos, em 1925, mesmo ano em que Adolf Hitler publicou seu controverso manifesto autobiográfico, Mein Kampf . E é um dos romances mais interessantes e completos que alguma vez li; seu estilo, seu ponto de vista, sua inventividade e seu brio romanesco, ainda estão preservados. Uma obra muito diferente do que havia sido publicado até então. De certa maneira, Dos Passos criou uma forma nova no romance. E como se tudo isso não bastasse, tem a virtude especial de ser um ...