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Slovo patsaná, a série

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Por Rafael Bonavina A dissolução da União Soviética não foi apenas um trauma para os que a vivenciaram e sentiram na pele os vários efeitos da dissolução de um país. É claro que isso não aconteceu da noite para o dia, foi um processo histórico que pouco a pouco minou as fundações dessa sociedade até que o edifício como um todo ruiu. Em outras palavras, a infraestrutura implodia e levava consigo a superestrutura. Não é à toa que a transição gerou — e ainda gera — muito debate a respeito das suas causas e consequências. Como não poderia deixar de ser, o polêmico tema também foi tratado na cultura, e vemos diversos poemas, romances, filmes e séries que o desenvolvem.   Um dos casos mais interessantes feitos nos últimos anos é a série de oito episódios Slóvo patsaná: krov na asfálte (2023), dirigida por Zhora Kryzhovnikov. Apesar do seu imenso sucesso na Rússia e em diversos países pós-soviéticos, a série não conseguiu atingir o Ocidente com a mesma potência, em muito por causa da gra...

O mundo é um moinho? — poetrices ao léu de Amadeu Logarezzi

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  Por Lucas Paolillo     as formas da música e sua elevação de espírito o branco e preto da palavra escrita os vários timbres da palavra dita o acordar passarinho e o dormir silêncio meio-dia, no meio, o somos, sendo inteiros sonhamos o real que não encaramos encaramos o sonho que não realizamos realizamos... uma espiral de coisas com a nossa cara a cara da liberdade que nos é cara em cuja busca tateamos um mundo cruel que não está em nosso peito nem no céu mas que nos pauta e nos põe no chão na busca de caminhos da vida viva cujo trilhar implica necessária leveza feito perfume de manacás que decorre do se levar e se elevar juntos dia a dia... corpo a corpo — Amadeu Logarezzi, “Perfume de manacás” (2025)     Não são raros aqueles que consideram, no Brasil, Cartola um exemplo de poeta. Nas criações dele, os limites entre literatura e música muitas vezes transbordam. Dentre as composições mais célebres do compositor temos “O mundo é um moinho”, gr...

Rubem Fonseca: a fascinação do abismo

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Por José Miguel Oviedo Rubem Fonseca, anos 1980. Foto: Arquivo do escritor.   Não deixa de ser um tanto paradoxal que tenha sido um escritor estadunidense tão famoso quanto Thomas Pynchon que tenha reconhecido no escritor brasileiro Rubem Fonseca o que poucos de nós conseguimos enxergar: um verdadeiro mestre.   “O melhor da obra de Rubem Fonseca é não saber aonde ela vai nos levar. Sempre que começo um livro dele, é como se o telefone tocasse no meio da noite: ‘Olá, sou eu. Não vai acreditar no que está acontecendo.’ A sua escrita faz milagres, é misteriosa. Cada livro seu não é só uma viagem que vale a pena, é uma viagem de algum modo necessária.”   Bom, há uma grande verdade nisso, porque a virtude fundamental de Fonseca é a de todo bom contador de histórias: fazer-nos acreditar no incrível, inventar um mundo que se assemelha ao nosso, mas que é, por alguma razão, inteiramente novo e fascinante.   Rubem Fonseca sabe, como poucos, contar algo tão envolvente que n...

Boletim Letras 360º #638

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Cristina Peri Rossi. Foto: Cristina Gallego LANÇAMENTOS   Dois livros apresentam a escritora uruguaia Cristina Peri Rossi, um dos principais nomes da literatura de língua espanhola do nosso tempo, Prêmio Cervantes em 2021 .   1. De um lirismo contundente, seu primeiro livro de poemas, Evoé , lançado em 1971, Peri Rossi causou escândalo ao explorar o erotismo lésbico. No ano seguinte seus livros foram censurados e seu nome foi proibido nos meios de comunicação em seu país. Em outubro de 1972, às vésperas do golpe que implantaria a ditadura militar no Uruguai, fugiu para a Europa e exilou-se em Barcelona, onde vive até hoje. Consciente de que “O poeta não escreve sobre as coisas/ senão sobre o nome das coisas”, criou uma obra multifacetada, não dogmática, atravessada pelos temas do exílio, do desejo — em suas múltiplas dimensões — e por um anseio constante de transgredir toda ordem estabelecida pelo sistema patriarcal. A antologia Nossa vingança é o amor reúne — em edição bilín...

José e os seus irmãos: a descida ao submundo e suas reminiscências

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Por Juliano Pedro Siqueira     “Fundo é o poço do passado. Porque não chamar-lhe insondável?”   — José e os seus irmãos: as histórias de Jaacob .     Thomas Mann na Suíça. Arquivo Photopress / Keystone / Bridgeman Images A história bíblica de José e sua saga pelo deserto é por si só uma narrativa fascinante. Muito utilizada em sermões para ilustrar as virtudes humanas diante das injustiças da vida e das representações simbólicas, ligadas aos sonhos — diga-se de passagem, inquietantes — , faz de José um ícone iluminado do cânone sagrado, marca da providência divina, que o acompanhou desde sua descida ao inferno até sua nababesca governança egípcia.     Esta impressionante história ganharia ainda maior robustez, quando Thomas Mann, dera início à sua maior empreitada literária, ao escrever, já no exílio em solo suíço — o romance José e os seus irmãos . O romancista alemão levaria 16 anos para compor sua tetralogia, iniciada com As histórias de Jaa...