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O riso de Vonnegut

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Por Bárbara Mingo Costales   No comovente documentário sobre sua vida Unstuck in Time , Kurt Vonnegut passa boa parte do tempo em crises de riso, mas, depois de um tempo, começa a parecer que bastaria simplesmente dizer qualquer coisa, que ele passa boa parte do tempo simplesmente em crises de riso, com uma espécie de tristeza que decidiu combater mascarando-a com um riso estridente. Não há dúvida sobre a existência dessa melancolia, pois o diretor do documentário, Robert W. Weide, ocasionalmente segura a cena por tempo suficiente para que possamos ver como aquele riso alegre termina com um timbre ligeiramente amargo. Eu diria até que o diretor chega ao ponto de desacelerar algumas cenas e dar zoom, usando truques da ficção televisiva para mostrar claramente a dor profunda do coração de Vonnegut.   Mas como ele poderia não perceber a tristeza de Vonnegut? O que sempre surpreende é seu vigor, a vitalidade em seus livros e seu amor e curiosidade pelos outros, que também transpa...

Ungaretti e a gênese de um livro

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Por Carlos Vitale Giuseppe Ungaretti. Foto: Emilio Ronchini   Em momentos de desânimo, quase sempre presentes, quando acreditamos que ninguém se interessa por nossas obras , nós, aspirantes a poetas, consolamo-nos com a ideia de que as tiragens escassas e mal distribuídas, que nos condenarão para sempre ao ostracismo, não são uma novidade destes tempos. Um bom exemplo disso é a edição de Il porto sepolto [O porto enterrado] (1916), reimpressa em 1923 com uma introdução de Benito Mussolini e a semente de A alegria (1931), de Giuseppe Ungaretti (1888-1970).   No outono de 1912, Ungaretti deixou o Egito em direção a Paris, onde estudou com Henri Bergson e entrou em contato com os maiores representantes dos movimentos artísticos de vanguarda (Guillaume Apollinaire, Pablo Picasso, Giorgio de Chirico, Amadeo Modigliani, entre outros). Por ocasião da Exposição Futurista na Galeria Bernheim Jeune, conheceu vários intelectuais italianos proeminentes, como Giovanni Papini, Mario Soff...

Mikhail Bulgákov e sua sina ou salvação eterna

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Por Herminio Requejo Schoendorff Bulgákov nos tempos de universidade em Kiev. Os poetas russos e seus discípulos demonstraram incansavelmente que nenhum tema literário é impossível. Tudo pode transitar da ficção para a realidade: o imaginário se torna real, e o real se funde com o imaginário. Eles sabem que a verossimilhança não existe, nem na literatura nem na vida: amantes que, por se amarem intensamente, separam-se para sempre ( Evguiêni Oniéguin ); homens que, tomados pela felicidade, acabam cometendo suicídio ( O idiota ); criminosos que assassinam movidos por uma ideia ( Crime e castigo ); escritores que, condenados por uma obra incompreendida, silenciada e destruída, são salvos pelo poder do amor e do imaginário, onde o infernal e o divino se confundem como formas de justiça ( O mestre e Margarida ). Somente uma dimensão excessiva, grotesca, quase fantástica, pode nos aproximar da realidade de um país que sempre viveu uma circunstância perturbadora. “Não se pode compreender a Rú...

Boletim Letras 360º #646

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DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras .   LANÇAMENTOS   Nova edição e tradução de um dos livros mais marcantes da obra de Lu Xun .   Grito é a primeira e mais importante coletânea de textos ficcionais de Lu Xun (pseudônimo de Zhou Shuren, 1881-1936), um dos fundadores e o maior expoente do modernismo literário chinês, dono de uma escrita que alia profundo espírito de inovação ao conhecimento minucioso da cultura milenar de seu país. Ao longo das catorze narrativas, redigidas entre 1918 e 1922, precedidas de um autobiográfico “Prefácio do autor”, Lu Xun não só compõe um retrato vivo do crepúsculo da dinastia Qing (1644-1911) e do conturbado nascimento da primeira República da China (1912-1949), como tece um agudo comentário crítico aos valores fundamentais e males arraigados da sociedade chinesa. Sua atuação enquanto homem da educação e da cultura, aliada ao alcance de...

Paterson, de William Carlos Williams

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Por Daniel Saldaña París O projeto de William Carlos Williams de encontrar uma forma poética que fizesse justiça ao que ele chamava de “idioma americano” teve vários episódios e resultou em diferentes abordagens formais, dentre elas, como sabemos por entrevistas, a que o deixou mais satisfeito foi o verso escalonado ou pé variável, que utilizou pela primeira vez em “The Descent”. Essa exploração do “idioma americano” não deve ser confundida com um interesse pelo ritmo conversacional da fala estadunidense. Se há uma busca por esse ritmo na poesia de Williams, não se deve ao caso de ser a conversa dotada de um fim estético em si mesma, mas porque, como forma natural, o ritmo e a dicção seriam a expressão mais exata de um caráter, e esse caráter, por sua vez, a decantação definitiva de uma História.   Agora, a ideia de História de Williams envolve necessariamente a paisagem, os processos sociais que determinam a configuração política de um país e os indivíduos, heroicos, que transit...

Sangue sábio e os distúrbios do sagrado

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Por Juliano Pedro Siqueira Flannery O'Connor. Foto: Andalusia Collection. No ano em que se comemora seu centenário de nascimento, não haveria momento mais oportuno para mergulhar nas histórias tragicômicas de Flannery O’Connor (1925-1964). A proposta deste texto é analisar seu intrigante romance de estreita, Sangue sábio (1952). A obra em questão carrega a problemática religiosa, contudo, possibilita o leitor — dentro desse complexo universo espiritual — adentrar em camadas mais profundas, ocultas no submundo de cada personagem; dado o nível de sofrimento e angústia que as afligem — não se restringe apenas a visão míope que detém sobre o sagrado, mas da própria visão de mundo que as cercam. O sentimento religioso exacerbado e o fanatismo presente na trama, são sintomas e fugas oriundas de conflitos internamente subjacentes, marcas de traumas e vivências passadas. A rejeição, a repressão e a indiferença são elementos visivelmente latentes e inquietantes em indivíduos que tentam,...