Leitura de orelhada

Por Rafael Bonavina




De tempos em tempos somos surpreendidos com algo tão antigo que, justamente por sê-lo, acaba esquecido e é apresentado como novidade. Não falo apenas dos casos, como o disco de vinil ou os compactos, de coisas que voltam à moda com um ar de vintage, pois esses até que têm seu charme de nostalgia. Apesar da pertinente discussão sobre a compra dessas mídias físicas como forma de recusa da situação precária de aluguel eterno que os streamings nos impõem, pretendo falar mais sobre uma prática que vem ganhando cada vez mais força nos últimos tempos: a leitura falada.

Não é que as pessoas tenham abandonado de vez a prática de ler livros em voz alta para seus filhos, por exemplo, embora seja inegável que o número de adeptos dessa prática fundamental poderia ser maior. Contudo a leitura em voz alta era bastante comum em outros tempos, e não só para crianças, mas para adultos também. Sabe-se que as famílias se reuniam e liam livros assim, como um passatempo conjunto.

O escritor russo Nikolai Gógol, por exemplo, era conhecido por ser um excelente leitor, capaz de dar ênfases e inflexões que impressionavam a todos os ouvintes e, segundo relatam os contemporâneos, davam um novo brilho às suas histórias. Encontramos esse costume também na literatura de ficção; em O idiota, de Fiódor Dostoiévski, o tuberculoso Ippolit lê uma longuíssima carta para todos os presentes; e em Romance teatral, de Mikhail Bulgákov, o protagonista Maksúdov lê um livro inteiro para uma trupe de teatro ao longo de alguns encontros.

É interessante de se notar, porém, que esse costume antigo e quase abandonado parece estar ganhando muita força nos últimos tempos. Não quero dizer com isso que as famílias têm deixado as telas individuais de lado e se reunido na sala de estar para ler Guerra e paz em voz alta, mas a leitura falada certamente está se adaptando para a nossa realidade. Vemos cada vez mais um crescimento do nicho do audiolivro no mercado editorial e de forma que não se limita apenas à acessibilidade ou à leitura feita automaticamente por programas. Pelo contrário, há leitores profissionais que se especializam nas técnicas vocais para tornar a leitura mais atraente para os ouvintes.

Esse tipo de iniciativa é, muitas vezes, recebida com certa desconfiança por parte dos leitores mais tradicionalistas, que vêm nessa modalidade uma forma diluída da verdadeira experiência de leitura. E, de fato, dificilmente um ator da voz seria capaz de transformar a obra de Immanuel Kant em uma leitura que se possa fazer enquanto se faz uma caminhada no parque. Porém, algo está nos levando à leitura com os ouvidos, e aí que está a questão que gostaríamos de nos deter.

A contemporaneidade nos oferece um sem-fim de narrativas simultâneas, principalmente nas redes sociais, repletas de vídeos de um ou dois minutos com uma sucessão rápida de cortes a fim de prender a atenção do espectador. Contudo, justamente por seu reduzido espaço, os vídeos não oferecem — ao menos em sua esmagadora maioria — uma complexidade estrutural que satisfaça a necessidade de fabulação de que nos fala Antonio Candido. Pelo contrário, mesmo depois de passarmos horas rolando o feed, ainda se fica com uma fome de ficção, que não deixa de ser revertida em oportunidade de lucro pelas empresas anunciantes.

Essa sensação de coito interrompido que as pseudonarrativas das redes sociais nos dão também pode ser vista por um prisma mais ligado à própria realidade do mundo do trabalho. Isso é, a satisfação dessa necessidade humana pela ficção está intrinsecamente ligada com o frenético ritmo de trabalho imposto pela organização atual do capitalismo, e os audiolivros são um sintoma disso, embora sejam vistos como uma solução. Vale lembrar que, como as últimas pesquisas indicaram, a maioria das pessoas leitoras são mulheres, negras e pardas, da classe C; o que nos diz muito sobre como se organiza a rotina desses indivíduos. Trabalho, transporte público, cuidar da casa e dos filhos. É compreensível que, em meio a esse turbilhão de obrigações e deslocamentos, essas pessoas tenham dificuldades em sacar um volume grosso, sentar-se e ler, ato que não só exige concentração — recurso raríssimo —, mas ocupa as mãos e os olhos com o objeto livro. 

Por isso, muitas vezes o audiolivro é oferecido com uma espécie de remédio para esse mal. Como a leitura gravada deixa livres as mãos e olhos da pessoa leitora, ela pode realizar algumas tarefas mais mecânicas, como andar de transporte público ou lavar a louça, enquanto continua sua atual leitura. E nisso há uma grande praticidade. Mas, se olharmos essa praticidade do audiolivro por outro ângulo, poderemos perceber que ela mitiga um problema mais estrutural do capitalismo contemporâneo: a alarmante redução das horas que o trabalhador não precisa vender para garantir sua subsistência. A jornadas de trabalho, apesar da recente vitória democrática que proibiu a escala 6x1, vêm se tornando cada vez maiores e palmo a palmo engolem as horas de lazer e leitura da maioria da população. A solução mais imediatista, portanto, é que o trabalhador “otimize” o seu tempo fora do trabalho, realizando simultaneamente o descanso e cuidando das demais tarefas que não se circunscrevem ao seu emprego. Ou seja, o descanso verdadeiro, em meio ao qual é possível o ócio necessário para a reflexão sobre a realidade e para a higiene mental, não ocorre de fato. 

Em certo sentido, o audiolivro também pode ser visto como uma manifestação editorial desse problema. Restam ao trabalhador tão poucas horas para cuidar de sua vida fora do trabalho que a leitura se torna parte de uma multitarefa; e, se não há tempo para abrir um romance, então se pode ouvir a leitura no caminho para casa ou enquanto se dobra a roupa. E, realmente, não se deve descartar que parte da leitura se perde entre uma meia e uma blusa mais delicada. Por outro lado, é difícil imaginar alguém que passe horas e horas absolutamente focado em sua leitura sem deixar-se distrair pelas notificações do celular, pelos afazeres domésticos ou pelo próprio cansaço. Diante disso, essa leitura “verdadeira”, que só seria possível usando os olhos, também traz um quê de purismo desnecessário. Afinal, é melhor uma leitura “imperfeita” que muitas das alternativas oferecidas hoje, como as histéricas redes sociais com seus preocupantes algoritmos. 


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