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Os substitutos, de Bernardo Carvalho

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Por Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Phil Dera De alguma maneira, eis um retorno de Bernardo Carvalho com Os substitutos àquele livro que significou um marco na sua trajetória como ficcionista. O périplo ora aventuresco, ora iniciático que conduz as duas figuras principais desse romance ao coração da Amazônia e a conturbada relação entre pai e filho funcionam como âncoras para a narrativa de Nove noites . Mas aqui, o interesse central da narrativa recai especificamente no dilema de corte familiar; o que o narrador acompanha num arco temporal circunscrito entre a infância e a maturidade é certa investigação de um filho em torno de descobrir o pai. Esse investimento resulta, se contornado tal interesse, no desvelamento da própria figura, antes provocada por um impasse instalado no interior de um imbróglio amoroso vivido entre esse investigador e o namorado, trinta anos mais novo. Neste romance, Bernardo Carvalho tira proveito de certo princípio parabolar. Nunca o que se conta, a...

Teatro, de Bernardo Carvalho

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Por Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Edilson Dantas O pensamento e toda a formação de nossa civilização ocidental apresentam-se articulados sob o signo de uma dicotomia que dispensa as continuidades entre as formas pela cisão. Em parte, isso nos serviu compreendermos sobre os organismos e seus sistemas, do mais simples ao mais complexo, e disso engendrarmos outros modelos que estabelecem alguma ordem no funcionamento da coletividade. Por outro lado, a dissociação está na base das crises que enfrentamos enquanto sistema e, desde o advento da psicanálise, como indivíduos. A essa altura, sabemos — se não, ao menos desconfiamos — que a dicotomia distintiva é ela própria a crise, o que ao longo da nossa história cobrimos com remendos capazes de disfarçar suas cisuras, não sem uma dose de força e barbárie.   Desde o começo da sua literatura, Bernardo Carvalho parece consciente disso e poderíamos designar como o seu principal interesse os impasses estabelecidos no conflito entre ...

O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho

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Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Gabriela Biló.    Por vezes toda a maestria de um escritor — ou seria sua maturidade — consiste em salvar um livro de cair no precipício. É comum encontrarmos boas ideias perdidas para relatos mal ajambrados; o caso é sempre uma das recorrências maiores agora quando persiste certa posse febril por ser escritor e quando os consagrados como tal estão obrigados a trazer ao público um livro a cada ano e se possível tão inovador quanto o que lhe deu a permissão de figurar entre os nomes principais do sistema literário. A lógica escravocrata que se observa neste contexto é a mais recente dos contributos na sociedade do consumo e ameaça à própria literatura, circunscrita num tempo próprio.   Se é comum obras naufragarem pelo discurso da pressa ou mesmo por uma revisão desatenta — e isso acontece em proporções quase idênticas e nas melhores casas editoriais — é raro o contrário; isto é, uma obra que nasce condenada a não vingar mas alcança...

Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho

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Por Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Marco Castro Há várias acepções para o termo demônio e a mais comum delas é a de um espírito que se rebelou contra Deus e passou a lutar pela perdição da humanidade. Um endemoniado é um possesso por esse espírito, capaz de toda sorte de transgressões, que pensa e age de maneira diabólica. Assim, é possível dizer que Bernardo Carvalho estava possuído por um desses ao propor uma narrativa contada pelo seu avesso. Grande parte do que se conta é dissecado como uma invenção de uma das personagens que significa não o vivenciado por outrem e sim por ela numa sorte de dissimulações variadas ao ponto de no fim o leitor também se colocar em suspenso pela possibilidade: e se aquilo que o narrador projeta não é de alguma maneira a verdadeira persona (se há) da protagonista e não a da antagonista.  Num jogo diverso de personalidades, o narrador preserva todos os simulacros do eu no intuito de compreender o quanto nossa realida...