Postagens

O contexto histórico global da prosa romanesca de William Faulkner

Imagem
Por José Gregorio Lobo A obra literária de qualquer autor sempre está entre um determinado contexto histórico social, independentemente dos acontecimentos dos quais se utiliza do contexto histórico de fora do texto como referente temático. No caso particular de William Faulkner – e isso é precisamente o motivo deste texto – destaca-se a utilização do contexto histórico-social como referente temático e quase como recurso narrativo. Nosso propósito nesta oportunidade é o de mencionar e enumerar os principais eventos históricos que serviram de marco referencial ao grande escritor estadunidense, por entender – claramente – que são para todos os seus contemporâneos, e com o esclarecimento de que aqueles escritores, coetâneos de Faulkner, que também tomaram a história como fonte temática, naturalmente irão plasmar os mesmos eventos de maneira totalmente diferente, de acordo com suas características pessoais e seus interesses particulares. Faulkner, como herdeiro de um passa...

Notas sobre “Três tristes tigres”, de Guillermo Cabrera Infante

Imagem
Por William T. Little Três tristes tigres , um romance hispano-americano por antonomásia, exemplifica a dificuldade (se não a impossibilidade) de aplicar critérios críticos tradicionais a uma narrativa inovadora sem prejudicar sua própria integridade estética. Se Joyce logra exaltar o heroísmo humano dentro da vulgaridade mediante a mais circinal perfeição artística, e se Cortázar logra reconciliar a busca de valores absolutos dentro do caos metafísico com a técnica labiríntica, Cabrera Infante se propõe problematizar (mesmo sem aprofundar no modo habitual) o enredo das aparências superficiais da vida em Cuba.  À primeira vista a pirotecnia linguística é a meta mais patente da obra. Mas, sem dúvidas, como Gargantua e Pantagruel , As viagens de Gulliver e Alice no país das maravilhas , Três tristes tigres é um romance humorístico de lances simbólicos. Além disso, estas quatro obras apresentam uma trajetória lógica do mundo gigantesco de Rabelais, passando pela ale...

Crime e castigo, Fiódor Dostoiévski

Imagem
Por Pedro Fernandes Shakespeare, Cervantes, Dante, Orwell, Hemingway... Grandes nomes da literatura que marcam os principais momentos da literatura universal. Entre estes nomes há muitos vazios, pertencentes a muitos outros de igual envergadura. E, claro, entre eles não pode deixar de se escrever o nome do russo Dostoiévski, autor de uma vasta obra, mas da qual se destacam ao menos três, digamos assim, mais lidas: Noites brancas , Os irmãos Karamazov e este que agora comentamos, Crime e castigo . Dos três, este último é sempre tido como uma carta de apresentação sobre sua obra, visto que, é um título que se inscreve no âmbito do que a crítica tem considerado como o da maturidade do escritor. Crime e castigo foi publicado em 1866. No Brasil, a tradução direta do russo mais recomendada é apresentada na Coleção Leste, da Editora 34; Paulo Bezerra, sem dúvidas, um dos nomes mais significativos no exercício de apresentação da literatura russa no Brasil, o responsável pela ...

Alejandra Pizarnik

Imagem
Alejandra Pizarnik (Argentina, 1936 – 1972) escreve sobre jaulas, barcos, olhos. Vinhos, céus, luas. Sortes, flores e pedras muito pesadas. É surrealista, sexual, depressiva. Em seus poemas sempre é noite e há uma caixa de barbitúricos próxima, porque sempre apetecerá ao leitor dizer “até aqui”. É uma menina monstro – como ela chamava Janis Joplin quando falava sobre suas influências –, uma mística, uma fêmea chafurdando nos despojos; tão frágil que não está nunca – porque sempre acaba de partir – e tão sensorial que vive nos objetos de tua casa. Não dói porque dói em todas as partes. “Tu eleges o lugar da ferida”, concedeu. Quando era pequena, chorava com as espinhas e se dopava de anfetaminas para perder peso. Se tornou viciada nas tais pastilhas e vivia entre a insônia e a euforia: cisnes enfermos voando baixo por aqui. Reinventava complexos. Tinha os céus de sua irmã mais velha. Gaguejava. Seus pais eram joalheiros, imigrantes judeus de origem russa e eslovaca. Ela falav...

Fiódor Dostoiévski

Imagem
Fiódor Mikaháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou a 30 de outubro de 1821, num hospital para indigentes onde seu pai trabalhava como médico. Em 1838, um ano depois da morte da mãe por tuberculose, ingressa na Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo. Ali aprofunda seu conhecimento das literaturas russas, francesa e outras. No ano seguinte, o pai é assassinado pelos servos de sua pequena propriedade rural. Só e sem recursos, em 1844 Dostoiévski decide dar livre curso à sua vocação de escritor: abandona a carreira militar e escreve seu primeiro romance, Gente pobre , publicado dois anos mais tarde, com a calorosa recepção da crítica. Passa a frequentar círculos revolucionários de São Petersburgo e em 1849 é preso e condenado à morte. No derradeiro minuto, tem a pena comutada para quatro anos de trabalhos forçados, seguidos por prestação de serviços como soldado na Sibéria - experiência que será retratada em Recordações da casa dos mortos , livro publicado em 1861, mesmo an...

Elias Canetti: evocação sem porquê

Imagem
Por Juan Malpartida Elias Canetti (1905-1994) pertence a uma tradição que não faz parte dos estudos literários. Esta tradição se caracteriza por um signo inquietante: seus autores escrevem sempre o mesmo livro, ainda que mudem de gênero e às vezes passem – como no caso de Canetti – da ficção ( Auto de fé , por exemplo) ao ensaio erudito e sério ( Massa e poder ), passando por obras de reflexão tão pouco demonstrativas que, em ocasiões, só parecem sustentar-se por sua enunciação ( A província do homem ). Pergunto-me se sua condição de judeu (descendia de uma família de origem sefardita) não teve algo a ver com essa atitude de alto compromisso, próximo ao fanatismo – o que chamaria de absoluto – na relação com a tarefa do escritor e com a obra em si, concebida como uma aposta contra a morte.   A Canetti, o autor de língua alemã de seu século o que mais lhe interessou, juntamente com Kafka, foi Musil, quem tratou nos anos de Viena. Mas, junto a estes autores, somari...