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Boletim Letras 360º #341

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Assim como todas as postagens na web do Letras saíram a grande improviso e custo, este boletim foi realizado na desconfortável área de uso comum do Aeroporto de Guarulhos. Estamos em trânsito e, por isso, a edição do Boletim Letras 360º deste sábado não trará as seções extras de sempre: Dicas de Leitura, Vídeos versos e outras prosas e Baú de Letras. Mas, a seguir todas as notícias apresentadas durante a semana em nossa página no Facebook. Boas leituras! Novos detalhes sobre a edição brasileira de Arquipelágo Gulag . O li vro sai em outubro de 2019.  Segunda-feira, 26 de agosto Considerado o primeiro romance da emigração italiana,  Em alto-mar , de Edmondo De Amicis ganha nova edição por aqui. O livro de Edmondo foi lançado na Itália em 1889 e teve dez edições em apenas duas semanas: um verdadeiro Best-Seller. Em Alto-Mar  é o relato da travessia que De Amicis fez do porto italiano de Gênova ao de Montevidéu, em 1884. Toda a narrativa se passa a bordo...

Minha maior lição lendo sobre conservadorismo: não ver o outro como monstro

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Por Rafael Kafka Há um ano, quando houve a corrida eleitoral mais tensa de todas as que testemunhei, eu decidi que era momento de começar a entender o pensamento do outro, de ouvir e ler mais sobre aquilo que eu criticava. Quando adolescente, eu tinha um conhecido que dizia que tinha vontade de ler a Bíblia para entender melhor os argumentos fundamentalistas e assim tecer críticas mais válidas a eles. Achei aquilo interessante e decidi tentar fazer o mesmo, mas parei de ler o livro sagrado cristão ainda no Pentateuco e só retomei a leitura doze anos depois, em 2019. Mais uma vez me encontro na dificuldade de ter parado a leitura e estou procurando tempo para voltar ao texto, mas mesmo diante dessa dificuldade e do fato do dito conhecido ter virado ele próprio um fundamentalista, eu comecei a sentir um prazer muito interessante em estudar o pensamento do outro, em entender que o que ele diz não é nenhum absurdo. Eu apenas veja as coisas de forma diferente. Após as el...

Xeque-mate, de Maria Azenha

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Por Pedro Fernandes Xeque-mate é uma derivação do termo de origem persa شاه مات‎   (šah mât) e quer dizer “o rei está morto”; a expressão é usada no enxadrismo para designar o lance em que o rei é atacado por uma ou mais peças adversárias e cujo resultado é o encerramento da partida. Para dar mate, o jogador se utiliza de um conjunto mínimo de peças: rei e dama contra rei; rei e torre contra rei; rei e dois bispos contra rei; ou rei, bisco e cavalo contra rei. Isto é, trata-se de uma jogada-limite realizada com as peças mais significativas do tabuleiro. Xeque-mate foi tornada palavra-chave por Maria Azenha para nomear o conjunto de poemas reunidos pela Editora Urutau; o livro publicado no Brasil em 2018 é o segundo título da poeta portuguesa que chegou a este lado do Atlântico – o primeiro que saiu pela mesma casa editorial em 2016 chamava-se A casa de ler no escuro . O deslocamento da expressão se integra aos planos recorrentes da poesia contemporânea de propiciar,...

“Pano de fundo variado para um destino comum”: Otto Maria Carpeaux e o romance brasileiro

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Por Guilherme Mazzafera A leitura dos inúmeros ensaios sobre literatura do austríaco-brasileiro Otto Maria Carpeaux (1900-1978), bem como de sua História da literatura ocidental , configura, na oposição entre o recorte preciso e o percurso totalizante, uma espécie de imago mundi da literatura do Ocidente cuja apreensão mais ou menos sistematizada demanda um recorte rigoroso. Aos poucos, o leitor vai construindo copioso mosaico de análises quase sempre breves que mantêm um olho rente ao objeto em estudo, respeitando sua expressão individual, e outro no lastro histórico do qual ele deriva, sem, no entanto, a ele se limitar. No caso deste breve ensaio, proponho um exercício sintético, perseguindo o fio do romance brasileiro na crítica literária de Carpeaux¹. Tendo chegado ao Brasil em 1939 e se estabelecido no Rio de Janeiro como colunista do Correio da Manhã em 1941, a entrada do elemento brasileiro em seu ofício crítico dá-se, nos livros, por meio da seção “No mundo ...

Sobre O encantamento

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Por Hermann Broch Sem nenhuma dúvida, um fato que responde à psicologia de massa pode ser expresso vividamente recorrendo a uma “descrição objetiva”. Pode-se descrever o vestimenta de um flagelador ou os gritos numa partida de futebol, ou a multidão reunida em frente ao Palácio da Chancelaria de cuja sacada ressoa a voz peculiar de Hitler, e também se pode descrever de uma forma muito nítida os horrores do pogrom ; mas todas essas descrições – mesmo quando têm um plano de fundo histórico – de certa forma não passam de declarações vazias. Tudo o que dizem é que existem ações que respondem à psicologia de massa, mas nada dizem sobre sua verdadeira função e seus efeitos. Para saber algo mais que isso, é preciso investigar a alma do indivíduo, perguntar por que e de que como se fica à mercê desse fenômeno incompreensível que chamamos de “psicologia de massa”, sim, precisamente a dificuldade para entendê-lo é o que nos move a levantar tais questões. A psicologia de massa torna...

Três obras fundamentais para conhecer a literatura de Herman Melville, o escritor que imaginou Moby Dick e anteviu Franz Kafka

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Em vida, seu esquecimento foi maior que sua glória. Moby Dick , o romance mais importante e celebrado de sua carreira, foi um absoluto fracasso quando foi publicado em 1851 e Billy Budd , uma fina alegoria política que toma o mar como território humano, foi publicado só postumamente. Herman Melville nasceu a 1º de agosto de 1819 e morreu em 1891 sem ver reconhecimento nem escutar grandes aplausos. Os últimos vinte anos de sua vida passou trabalhando como agente de alfândega nas docas em Nova York e tentando se recuperar da morte de seus três filhos: Malcolm, que cometeu suicídio; Lucy, que não chegou aos trinta anos e Stanwix, que morreu aos 35 anos. Há algo de trágico em Melville e ao mesmo tempo luminoso: ignorado e colocado à margem das fronteiras do universo literário de seu tempo, escreveu uma obra que tem em tudo o trágico shakespeariano, o épico e a literatura de viagem. Mas não apenas isso. Seu Bartleby prefigura Gregor Samsa de Kafka e Billy Budd inspirou uma das...