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Um jardim fiel de materialidades em fé

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Por Tiago D. Oliveira Adélia Prado. Foto: Nana Moraes Respondendo a um de seus seguidores nas redes sociais, Adélia Prado — que aos 89 anos se reinventa lendo poemas, lançando perguntas e dialogando com leitores a partir da sua obra — diz que um de seus salmos favoritos é “Pequei, Senhor, misericórdia”. Em seguida, cita: “livrai-me da memória do pecado em meu espírito”, reafirmando a voz inigualável dessa poética que constrói destinos. “Eu queria ter escrito isso, porque a memória do crime praticado é pior do que o crime. O perdão pleno é esse que nos livra da memória do crime.” A poesia, para essa poeta, se desenha como um campo de reações e experimentos onde a fé se ancora diretamente nas diversas fases da vida. Vencedora dos prêmios Camões e Machado de Assis, a autora reúne reconhecimentos que contemplam “o conjunto da obra”, que, se tratando de Adélia,  nunca deixa de surpreender. A “paciência das tardes” pode sugerir uma boa metáfora para o percurso de leitura do novo livro da...

Boletim Letras 360º #666

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DO EDITOR Saiba que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajudar a manter o  Letras , sem qualquer custo extra. O seu apoio continua essencial para que este projeto permaneça online. LANÇAMENTOS Moscou feliz é uma novela icônica do escritor soviético Andrei Platônov, inédita em português .  O título é uma referência à personagem principal, Moscou Tchestnova, uma jovem órfã, criada pela revolução, que sonha em se tornar paraquedista. A protagonista encarna a promessa eufórica de um tempo em que os filhos do proletariado acreditavam ser possível construir o futuro com as próprias mãos, em meio a uma sociedade de alta inovação técnica e científica. A personagem e sua história se confundem com a da própria União Soviética. Uma jovem mulher que acredita poder seguir seus desejos, relacionar-se livremente e escolher a profissão que quiser, mas que se depara com os desafios e limites que a impedem de encon...

Fédon ou sobre a alma — Sócrates decide morrer

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Por Afonso Junior Uma cela, um condenado à morte, um grupo de amigos e discípulos. Fédon de Élis, ex-escravizado de guerra e discípulo de Sócrates, é instado pelo pitagórico Equécrates de Fliunte a narrar “o que disse o homem diante da morte” ( Phaedo , 57a).  Algumas horas antes de morrer, Sócrates tem dois desafios: provar que a alma é imortal (portanto, que não irá morrer) e provar que a causa-origem do mundo como nos aparece é algo invisível, talvez transcendental — como afirma Gabriele Cornelli na sua introdução da (também sua) tradução do Fédon , “as coisas sensíveis querem imitar os paradigmas, mas sempre falham” (Platão, 2025, p. 37). No final, o mito, falando de uma “Terra em si”, a qual seria “pura no puro céu”, vem nos ajudar: “As estações são tão amenas que aqueles que lá habitam não ficam doentes e vivem muito mais do que aqueles daqui. Quanto à vista, ouvido, intelecto e todas as faculdades do gênero, eles nos superam em pureza no mesmo grau em que o ar supera a ...

Os substitutos, de Bernardo Carvalho

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Por Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Phil Dera De alguma maneira, eis um retorno de Bernardo Carvalho com Os substitutos àquele livro que significou um marco na sua trajetória como ficcionista. O périplo ora aventuresco, ora iniciático que conduz as duas figuras principais desse romance ao coração da Amazônia e a conturbada relação entre pai e filho funcionam como âncoras para a narrativa de Nove noites . Mas aqui, o interesse central da narrativa recai especificamente no dilema de corte familiar; o que o narrador acompanha num arco temporal circunscrito entre a infância e a maturidade é certa investigação de um filho em torno de descobrir o pai. Esse investimento resulta, se contornado tal interesse, no desvelamento da própria figura, antes provocada por um impasse instalado no interior de um imbróglio amoroso vivido entre esse investigador e o namorado, trinta anos mais novo. Neste romance, Bernardo Carvalho tira proveito de certo princípio parabolar. Nunca o que se conta, a...

Não é uma boa ideia se tornar freira

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Por Alberto Olmos  Aprendemos muito de algo que não nos interessa com Los domingos . Parece que o filme de Alauda Ruiz de Azúa ganharia facilmente o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Hollywood gosta de filmes que retratam realidades secretas, minoritárias e um tanto folclóricas. Nada é tão assim para um estadunidense quanto um convento em Bilbao. Foi difícil para mim ir ver o filme porque era tarde demais para sair de casa e ver uma garota que quer ser freira. Gosto de ir ao cinema para ver cinema em abundância. Isso significa que me atraem os tons, as atmosferas, a estética, os desafios, os riscos e, em suma, a gramática expansiva do cinema. Fico muito incomodado com um filme que é só gente conversando. Acho que se eu tivesse assistido em casa, teria abandonado depois de uns vinte minutos. A história começa com pausa e hesitação, estabelecendo suas coordenadas de uma forma um tanto rudimentar. Não gosto de um corredor que surge do nada. É um corredor com papel de parede, e quem t...

Um novo cavaleiro de bronze

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Por Rafael Bonavina  Orest Kiprensky,  Retrato de A. Púchkin , 1827. Foi lançada neste ano O cavaleiro de bronze e outros contos em versos , uma nova seleta de textos de Aleksandr Púchkin, sem dúvida um dos, se não o, mais importantes escritores na história da literatura russa; e ainda assim, como por uma ironia do destino, ele é pouco lido fora da Rússia. Púchkin é para os russos algo como o nosso Machado de Assis, ou seja, uma espécie de ponto de virada na historiografia literária, de salto qualitativo. Não raro encontramos pesquisadores defendendo que a literatura russa só afirma sua identidade nacional a partir de Púchkin; e isso, a nosso ver, não seria um exagero de fã. Afinal, sua obra mescla o classicismo — que pautava grande parte da literatura — com diversos elementos da cultura popular, como a fala e o folclore. A partir daí, é como se a língua russa real começasse a ganhar mais presença no papel, tomando espaço do estilo grandiloquente e já desgastado que se usava n...