Azul e dura, de Beatriz Bracher

Por Gabriella Kelmer 

Beatriz Bracher. Foto: Eduardo Knapp



Quando os tempos são contrários, não raras vezes a literatura possibilita nosso contato com um escapismo tão inteiriço quanto é a submersão — exclusiva ao texto — ministrada pela linguagem. A obra literária pode sublimar a existência ao reduzir a acústica da realidade imediata, como meio legítimo de virar as costas ao abismo que se aproxima.

O outro caminho é contrário e corresponde ao confronto com o presente, o que é potencializado pela singularidade da obra, repartida, muitas vezes, entre o dado estético e a especificidade com que a produção se vincula à realidade. Ler é epifânico também quando se evidenciam os retalhos das nossas circunstâncias, quando se dinamizam alguns dados históricos, políticos, sociológicos. Sendo indevido reduzir a esse escopo o fato literário, é igualmente discorde ignorar que a obra absorve e digere em alguma medida a realidade, reestruturando-a.

Tendo precisado da primeira estratégia em alguns momentos das últimas semanas, minha opção mais presente tem sido buscar textos que reforcem, neste momento, a segunda alternativa. Por essa razão, retomei a leitura de Azul e dura, da brasileira Beatriz Bracher, obra publicada pela Editora 34 em 2002. 

O romance é narrado em primeira pessoa por Mariana, protagonista que, hospedada nos Alpes suíços (atente para a vinculação entre o título e o espaço), revolve o passado, tempo em que vivem um acidente profundamente traumático e o processo judicial que o sucede. Filha da alta burguesia, a personagem tateia em busca de um sentido que torne possível conceber os extremos de ter ela atropelado e matado uma menina com deficiência intelectual e física e estar inteiramente livre de qualquer consequência pela ação desempenhada. 

“Manhã de ressaca velha. Lembrar dói. A vodca facilita, mas não ajuda, ou vice-versa. Devagar, para não doer a cabeça, organizo as fichas e anotações do roteiro. Leio num caderno espiral, com desenho psicodélico na capa, o diário das filmagens. Vou indo, seguindo o que já foi, só contando o acontecido, sem saltos ou sustos, sem cacos de vidro, não, sem cacos de telha, sem Luiz Melodia, assim devagar e pela metade acho que consigo chegar. Minha boca guarda o gosto ruim da bebida, os pulsos cheios de casquinhas. Enquanto durarem mantenho-me sóbria. Tenho que me ater, atar-me, ao já escrito, se quero chegar ao fim” (Bracher, 2010, p. 33).

O romance dá conta da vida de Mariana desde a juventude. Nos anos 1970, ainda durante a ditadura militar, tentava ela equilibrar o repentino amalgamento entre suas idealizações sobre revolução e sociedade — em especial sobre uma camada social explorada, a ser encontrada nas favelas abstratas da universitária da classe média — e a realidade e suas experiências, a frustrarem os estigmas e enrijecimentos. Esse contato transformador não volta a se repetir nos anos que se sucedem à graduação. Mariana, vinda de família latifundiária, casa-se com um advogado, herdeiro das ambições de uma família com laços com o judiciário e com a política; o enriquecimento do marido é paralelo ao domínio crescente da esposa da rotina doméstica e da criação dos filhos, sendo o afastamento dessas duas linhas uma consequência evidente. Mais tarde, ocorre o acidente e o julgamento, ficando Mariana inocentada de todas as acusações, embora internamente vivencie um processo que mistura apatia e incredulidade, autopunição e inércia, mutilação e alcoolismo. O divórcio, posterior ao acidente, soma-se a uma depressão profunda, sendo o presente da narração a tentativa angustiada de trazer alguma ordem derradeira à vida.

Em termos estéticos, a narrativa — a primeira publicada pela excelente Beatriz Bracher, conhecida neste blog por outras obras — mobiliza as forças que caracterizarão o ciclo de três romances (Azul e dura, Não falei, Antonio) com que a autora adentra o mercado editorial: a primeira pessoa da narração, sabidamente parcial, e um desconforto existencial de alcance metaficcional a se derramar sobre a linguagem, tomando-a como única possibilidade e problemática, como meio de expressão e limite, construção, parte de uma realidade em alguma medida inexpressável. De modo singular, é o romance dividido em entradas que correspondem a entradas não cronológicas, constituindo-se sua vida desordenadamente, apesar da tentativa racional de organizar acontecimentos pelas temáticas específicas que dão título às partes do texto. 




É notável como a primeira pessoa, conforme constituída por Bracher, lamenta sem autocomiseração, constituindo relato crítico, honesto, visceral, ao transitar inclusive pelas perversões e pelas fantasias mais sórdidas, o que traz a impressão de um compromisso decisivo frente ao processo de desvelar alguma verdade (ainda que isso seja enfim incerto). Mariana, ao contrário do acusado que se defende e se adoça na mesma operação, se tem desde o início como culpada — se não pelo acidente, precisamente, pela facilidade com que dele se desvencilhou. 

“A escuridão já baixada naquele tempo também. E, como agora, recolhida, eu escrevia. E, como agora, não inventava personagens, apenas trocava os nomes. Tiro de uma pasta com elásticos ressecados, do ventre da azul e dura, de uma pasta etiquetada — Ficção — várias tentativas de contos. Em quase todos eles, uma mulher deprimida. Há muitas passagens sobre armários, marceneiros, toalhas dobradas de acordo com suas cores. Curiosa obsessão” (Bracher, 2010, p. 60).

Há outras qualidades ao romance — a forma como a arte adentra o relato, a beleza dos longos parágrafos descritivos, a simplicidade aparente de uma narrativa complexa, cuja força reside na pessoalidade do relato e no estado psicológico que se omite sob a falta de afetação das construções (“Tudo funciona nessa casa que não é minha”, diz ela, a certa altura, depois comentando sobre um “jogo que não entendo, alegria e comunhão que não esqueci”). Mas o fato que orientou este texto é de outra ordem, embora resida na estrutura da obra. 

Dois episódios são os que me fizeram retornar ao romance. Em um deles, a narradora, pouco depois do acidente que vitima a adolescente Nicole, ainda no hospital público onde recebeu a notícia do falecimento da vítima, vê o marido, tão distinto das pessoas “baixas e morenas” que a rodeiam, e se lembra imediatamente “de quem éramos” (Bracher, 2010, p. 26); em outro, enquanto espera o próprio julgamento, do qual sairia inocentada, Mariana testemunha a audiência de uma jovem, de nome Luciana, que após um ano de prisão é enfim apresentada perante o judiciário por roubar cinco pacotes de lâminas de barbear.

Não sei se essas ocorrências, que se tem reproduzido muitas vezes na minha memória da obra, dizem algo sobre o momento que vivemos, sobre nossa sociedade. Talvez sim. Algo sobre a doce rancidez da desigualdade, sobre a infalibilidade da justiça na proteção dos poderosos, sobre a facilidade da imobilidade residual do classismo, do racismo e da hierarquização social naqueles que identificam em si mesmos essas posturas e desejam pô-las longe. 

Ler a narrativa é neste momento amargo remédio, que ainda assim, como no receituário médico, devo recomendar.

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Azul e dura
Beatriz Bracher
Editora 34, 2010
167p.

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