Boletim Letras 360º #713
DO EDITOR
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| Julio Cortázar. Foto: Sara Facio |
LANÇAMENTOS
A paixão de Julio Cortázar pela poesia se revela de muitas maneiras, desde o extenso volume que dedicou à obra e à vida do poeta John Keats, no início dos anos 1950, aos mais de mil poemas que escreveu ao longo da carreira. Dessa abundante produção, reúnem-se aqui dois livros fundamentais: Pameos e meopas, de 1971, e o póstumo, organizado pelo próprio autor antes de sua morte, Salvo o crepúsculo, de 1984. O título de 1971 é o primeiro volume de poemas que Cortázar publicou depois de estrear com os sonetos de Presencia, de 1938, assinado sob o pseudônimo de Julio Denis. Cada uma das seis partes em que se divide traz indicações de cidades e anos, circunscrevendo boa parte da produção à década de 1950, entre Buenos Aires e Paris, com passagens por Roma e Havana. Em trânsito entre a poesia e a prosa, Salvo o crepúsculo reúne poemas de épocas distintas para criar um objeto único, em que Cortázar entrega um depoimento de sua relação com a poesia, que se abre para o que Davi Arrigucci Jr. chamou de “território incerto”, referindo-se à experiência poética na obra do autor argentino. Passeando por línguas e paisagens diversas, sempre pontuadas por suas leituras, a poesia de Cortázar vai catando imagens que o autor converte nas formas mais diversas, das fixas dos sonetos aos poemas visuais. Nas páginas deste volume, talvez mais genuinamente do que nunca, Cortázar vem ao nosso encontro: “Falo de mim, qualquer um se dá conta,/ mas eu já levo um tempo (sempre o tempo)/ sabendo que em mim está você também”. Uma nova e magnífica dimensão de um dos autores incontornáveis da literatura do século XX. Publicação da Companhia das Letras com tradução de Paloma Vidal. Você pode comprar o livro aqui.
Livro com o qual Yasmin Zaher recebeu o prêmio Dylan Thomas de romance de estreia em 2025 ganha tradução e edição brasileiras.
A moeda acompanha uma jovem palestina rica, elegante e obsessivamente limpa que tenta construir uma nova vida em Nova York. Professora em uma escola para meninos de comunidades marginalizadas, ela desafia os limites da sala de aula com métodos pouco convencionais. Fora dela, envolve-se com um golpista em um lucrativo esquema de revenda de bolsas de grife, objetos cujo valor parece crescer indiferente à pobreza, às guerras e às crises do mundo. Enquanto circula entre o luxo e a degradação da cidade, a narradora se vê cada vez mais consumida pela necessidade de controlar o próprio corpo, a aparência e tudo o que a cerca. A lembrança de uma moeda engolida na infância, que ela imagina ainda alojada em seu corpo, transforma-se na expressão física de traumas herdados, do desenraizamento e de uma identidade que não pode ser apagada. Com humor ácido, sensualidade e uma prosa vertiginosa, inspirada em Clarice Lispector, de quem a autora é leitora, Yasmin Zaher constrói um retrato original da solidão contemporânea e das contradições entre desejo, dinheiro, origem e liberdade. Com tradução de Isadora Sinay, o romance sai pelas Edições Cosac. Você pode comprar o livro aqui.
Ainda dos retornos da obra-mestra de Álvaro Mutis.
Quando Maqroll, o Gaviero, perde o navio e se vê preso em terra firme, no Panamá, o acaso lhe devolve Ilona, amiga, amante e companheira de tantas errâncias. Juntos, os dois inventam um negócio tão extravagante quanto provisório para juntar dinheiro e voltar ao mar, mas a chegada de Larissa transforma a aventura em um triângulo de desejo, amizade e mistério. O romance combina aventura, erotismo e uma prosa de extraordinária densidade poética para falar, no fundo, de personagens que nunca deixam de partir porque não encontram lugar onde ficar. Obra-prima de Álvaro Mutis, escritor colombiano vencedor do Prêmio Cervantes, foi adaptado para os cinemas em 1966 pelas mãos do grande cineasta colombiano Sérgio Cabrera. Ilona chega com a chuva ganha nova edição e tradução de André Aires pela editora Pinard. Você pode comprar o livro aqui.
A inteligência dedutiva de um gato.
Deus existe? Qual a origem da vida? Como o planeta Terra se formou? Como alcançar, em vida, a suma felicidade? Os homens não são capazes de responder a tais perguntas, tampouco os gatos do passado e muito menos os cachorros, “criaturas condenadas”. Apenas um gato de grande inteligência dedutiva, afinado ao pensamento moderno, saberia decifrar os mistérios do mundo. Publicado em 1858 pelo historiador e crítico literário francês Hippolyte Taine, ilustrado por Gustave Doré, Vida e opiniões filosóficas de um gato oferece ao leitor o mais delicioso e sutil senso de humor, destilado neste breve tratado de filosofia felina. Com tradução de Samuel Titan Jr. o livro sai pela Editora 34 com posfácio de Paolo Tortonese. Você pode comprar o livro aqui.
O período e as contribuições de Toni Morrison como editora.
Multifacetada, Toni Morrison contribuiu para a arte literária muito além de seu papel consagrado como escritora. Entre 1971 e 1983, ela foi editora na Random House, uma das casas editoriais mais renomadas dos Estados Unidos. Este retrato fascinante feito por Dana A. Williams reconstrói a extraordinária trajetória de Morrison, desde os seus primeiros passos no mercado editorial até se tornar uma das vozes mais audaciosas e influentes das artes. Ela inseriu novos nomes na cena literária, trabalhando ao lado de autores de destaque como Toni Bambara, Leon Forrest e Lucille Clifton, e contribuiu para a construção da voz narrativa dos ícones culturais Angela Davis e Muhammad Ali, permitindo-lhes contar suas histórias sob seus próprios termos. Assim, ao enfrentar as barreiras de um mercado editorial majoritariamente branco, Morrison não apenas ampliou o espaço para a autoria negra, mas também transformou a maneira como o público leitor recebia e compreendia essas narrativas. Com base em relatos em primeira mão e pesquisa extensa, incluindo cartas inéditas, Toni Morrison, editora demonstra como a influência de Toni Morrison sobre a cultura vai muito além dos livros ou autores que publicou. Sua odisseia editorial transformou o panorama literário e aprofundou o debate cultural, mostrando como a edição de livros também pode ser um ato radical de criação e resistência. Com tradução de Ryta Vinagre, livro é publicado pela HarperCollins Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
O livro Paulo Leminski: uma biografia da obra, de Sandra Novaes, oferece uma análise profunda e original da vida e obra do poeta curitibano.
Mais do que uma biografia tradicional, a obra se concentra na construção do conjunto de textos produzidos por Leminski, traçando sua trajetória intelectual e artística. A autora se baseia em uma pesquisa meticulosa, utilizando uma vasta gama de fontes, incluindo a própria obra de Leminski, cartas, entrevistas, jornais e revistas da época. Isso confere à obra um caráter denso e bem fundamentado. Ao mesmo tempo, Novaes utiliza uma linguagem fluente e poética, que torna a leitura agradável e envolvente, aproximando o leitor da sensibilidade de Leminski. A obra se destaca por sua abordagem original, que analisa como os diferentes textos de Leminski dialogam entre si e com o contexto histórico e cultural. Isso permite ao leitor compreender a complexidade e a riqueza da obra leminskiana. Publicação da Kotter Editorial. Você pode comprar o livro aqui.
Nesse estudo sobre a mortalidade e a força duradoura da beleza e da criação artística, dúzias de escritores, pintores, músicos e esportistas notáveis fazem companhia aos relatos pessoais do autor em uma narrativa cujo fio condutor é a experiência do fim.
Em janeiro de 2019, após assistir a uma coletiva de imprensa em que o tenista Andy Murray anunciava que iria abandonar as quadras, Geoff Dyer decidiu escrever um livro sobre “as coisas chegando ao fim, as últimas obras dos artistas, o tempo se acabando”. Dyer entrava na sexta década de vida. As mudanças provocadas pela idade em seu corpo e nas suas capacidades como escritor logo se veriam entrelaçadas com mudanças globais, entre elas a pandemia de covid-19, que dariam ao assunto dos términos um novo alcance e gravidade. “Desistir assim exige, na verdade, uma autodisciplina normalmente associada à persistência, uma perseverança em continuar se arrastando num livro que a gente está lendo sem prazer”, escreve Dyer a certa altura. A passagem se refere às dores no flexor do quadril que resultaram da sua insistência em seguir jogando tênis, mas, na arquitetura engenhosa de Os últimos dias de Roger Federer, tudo está relacionado a todo o resto. Saber quando e como encerrar uma paixão ou uma carreira requer dedicação, e não há mapas nem garantias. Seja comentando as reescrituras intermináveis das letras de Bob Dylan, a indistinção entre as pinturas prontas e inacabadas de J.M.W. Turner, o “fim de linha” na obra tardia de John Coltrane ou “o fim do reinado da beleza” tenística representado pela aposentadoria de Roger Federer, Dyer nos convida a perceber o novelo de criação e destruição que insufla vidas dedicadas a uma arte. Dyer soma às histórias de figuras célebres uma profusão de anedotas pessoais, sempre cheias de uma verdade existencial imediatamente reconhecível. Reflexões sobra a perda gradual da capacidade de romances difíceis, planos meticulosos para roubar xampu do banheiro de hotéis, excursões ao festival Burning Man, entre outros relatos irreverentes, iluminam esse ensaio memorável sobre a beleza, a transitoriedade e a finitude. Os últimos dias de Roger Federer sai pela Companhia das Letras; tradução de Denise Bottmann. Você pode comprar o livro aqui.
Com sua prosa inconfundível, Ruy Castro nos revela fatos históricos, curiosidades que só quem esteve nos bastidores conhece ou uma dica de algum artista imperdível cuja fama não sobreviveu ao tempo.
Que Ruy Castro gosta de música, não é novidade. Alguns de seus livros mais prestigiados se dedicam a ela: Chega de saudade, A noite do meu bem, A onda que se ergueu no mar. A novidade é esta obra, uma coletânea de textos dedicados às suas grandes paixões: o samba, o Carnaval, a bossa nova e o jazz. Em Eu gosto de música, Ruy Castro nos transporta aos palcos, estúdios de gravação e camarins do século XX para narrar a formação daqueles gêneros, desfazer mitos e falar de seus notáveis artistas fora do microfone. Por Eu gosto de música, desfilam Tom Jobim, João Gilberto, Gal Costa, Rita Lee, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Carmen Miranda, Wilson Baptista, Billie Holiday, Frank Sinatra, Tony Bennett, Charlie Parker, Charles Mingus, Thelonious Monk e muitos outros que nos iluminaram com sua arte. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
Esta obra, que reúne a correspondência ativa e passiva de Euclides da Cunha e é resultado de uma pesquisa empreendida por Leopoldo M. Bernucci e Felipe Pereira Rissato durante quase duas décadas em arquivos no Brasil e no exterior.
O volume apresenta 1.608 missivas escritas e recebidas pelo autor entre 1883 e 1909, incluindo um conjunto de 918 cartas inéditas que ampliam significativamente o conhecimento sobre sua trajetória. Ao organizar as mensagens enviadas e recebidas em um único corpo de texto, a edição recupera o diálogo direto de Euclides com seus contemporâneos, expondo a rede de interlocuções que sustentou sua vida intelectual e pública. O leitor encontra nestas páginas o registro das tensões entre a rotina exaustiva da engenharia e a dedicação minuciosa à literatura. O conjunto documental ilumina os bastidores de obras fundamentais, as dificuldades das expedições por regiões remotas e os dilemas políticos do Brasil durante a transição entre o Império e a República. Além de constituir mais do que um subsídio biográfico, o acervo preserva a força do estilo euclidiano em diferentes registros, transitando da formalidade dos cargos públicos à intimidade das amizades sinceras. Este compêndio fixa um panorama completo da produção epistolar de um dos maiores intérpretes do país, oferecendo um retrato fiel de suas preocupações humanas e de seu tempo histórico. Diálogo epistolar de Euclides da Cunha é publicado pela Editora Unesp. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Mais do teatro de Pasolini. As Edições Cosac apresentam Afabulação e Pílades no segundo volume das publicações dramatúrgicas do multicriador italiano. Traduções de Alex Calheiros e Pedro Falleiros Heise.
A trilogia autobiográfica de Górki. A Penguin/ Companhia reedita a tradução de Rubens Figueiredo e Boris Schnaiderman de Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades então publicada pela extinta Cosac Naify.
Outro regresso. O mesmo grupo editorial, agora a Companhia, reedita uma nova versão de Viagem ao México, de Silviano Santiago, um relato da viagem de Antonin Artaud ao México.
Stefano Mancuso lê São Francisco. O poema “Cântico das criaturas” está na base do livro do botânico italiano que se tornou célebre ao pensar a flora fora dos limites condicionados pelo racionalismo ocidental. Livro da Ubu com tradução de Regina Silva.
DICAS DE LEITURA
1. Messalina: romance da Roma antiga, de Alfred Jarry (Trad. Letícia Coura, Iluminuras, 124p.) Parte da trilogia Amor e Morte, essa é a versão alucinante avant la lettre da história da terceira esposa do imperador romano Cláudio. Você pode comprar o livro aqui.
2. Enquanto não te vejo, meu Jesus, de Elena Poniatowska (Trad. Silvia Massimini Felix, Pinard, 416p.) A partir da vida de uma revolucionária da Revolução Mexicana, um vívido retrato dos que a história condenou à margem. ce secreto e conflituoso entre Tarek e Ali em meio um Egito instável marcado pelo Você pode comprar o livro aqui.
3. Sonhos da pessoa física, de Odorico Leal (Todavia, 120.) Um livro que aposta na ironia e na paródia para dar conta, entre outros trânsitos, entre amor e ódio, liberdade e opressão. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Mestre Zu, documentário de Zelito Viana e Luciana Savaget, revisita a juventude de Zuenir Ventura em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, onde começou uma difícil trajetória que o levaria a ocupar o lugar de um dos mais importantes nomes no jornalismo brasileiro. O filme alcança responder como o jornalista se valeu do rigor jornalístico e da sensibilidade literária na feitura de obras como 1968: o ano que não terminou ou Cidade partida. Pode-se ver um trailer do filme aqui.
BAÚ DE LETRAS
Falamos da poesia de Julio Cortázar desde 2017. Duas vezes. Nesta matéria publicada aqui e que incluiu dois poemas de Pameos y meopas. E neste texto traduzido por aqui: “Julio Cortázar, no princípio foi a poesia”.
DUAS PALAVRINHAS
Um livro deve ser perigoso ou não ser nada, um escritor que não é perigoso não é um escritor, mas um dactilógrafo.
— Alberto Manguel, em Resistir
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