Mortes rememorando outras mortes em Dakota blues, de Simone Az
Por Douglas Sacramento
I
Lembro de quando procurava o meu tema de pesquisa para o trabalho de conclusão do curso. Pensava em discutir a memória na literatura de mulheres negras, em especial nas obras de Toni Morrison e Conceição Evaristo, e algum outro tema. Não queria escrever apenas sobre memória. Até que, numa reunião familiar de domingo surgiu uma conversa sobre morte e percebi que, ao puxar os fios, às vezes emaranhados, de thanatos, era possível chegar a um processo de rememoração. Um morto leva a outro, que leva a outro morto.
A partir desse momento, decidi pensar essa relação tão visceral para a literatura. Lembrar os mortos, rememorar para não esquecer e imortalizá-los por meio da escrita. Foi assim que comecei a leitura e a escrita à volta esses dois temas também encontrados com recorrência na literatura contemporânea.
Por ser conhecido entre meus amigos como um pesquisador dedicado ao tema da morte, um deles me indicou o primeiro romance de Simone Az. Logo, esse percurso da minha vida acadêmica serviu para pensar e entender o que tinha acabado de ler. Dakota blues (2025), escrito pela autora paulista, que também é jornalista, redatora e roteirista, marca sua estreia no romance. Antes dele, ela publicou o livro de contos Beijo de língua no espelho (2022).
O romance gira em torno de Alice. Ao longo da narrativa, a morte se apresenta como uma constante na vida da personagem. Em quase todos os capítulos das quatro partes que constituem o livro, há alguma morte ou a rememoração de alguém que morreu. Na infância, Alice perde os animais de estimação, depois a avó e o pai, enquanto a família se estrutura e se reestrutura diante dessas perdas. Na adolescência e, posteriormente, ao ingressar na faculdade, continua frequentando enterros, até que seu melhor amigo gay morre por complicações derivadas da Aids, morte que abala suas estruturas e a faz mudar de vida.
É no meio de tantas perdas que surgem os primeiros amores: um caso que não consegue superar com o melhor amigo do namorado, que futuramente se tornará marido da irmã e, depois da morte do amigo, novos relacionamentos. Essa mudança de vida a leva a passar alguns meses em Nova York, realizando o sonho de conhecer o Hotel Dakota, conhecido por ter sido cenário do filme O bebê de Rosemary (1968) e lugar do assassinato de John Lennon, em 1980. Nos Estados Unidos, novas experiências ligadas à morte e ao amor: um aborto e o relacionamento com um alemão misterioso.
Quando retorna ao Brasil, a morte volta a visitar Alice, com o falecimento de tia Otília, em decorrência do consumo desvairado de bebida alcoólica. É também nesse período que ela começa a trabalhar como escritora de obituários e realiza uma exposição fotográfica sobre a morte. Ao mesmo tempo, acompanhamos as mudanças do país: o irmão comunista que luta pelo fim da ditadura militar, a redemocratização do país e o governo Collor até chegarmos ao primeiro mandato de Lula.
É nesse retorno à vida brasileira de Alice que acompanhamos seu relacionamento com Antônio, um escritor que usa a vida da protagonista para escrever seus livros de mistério, ganhando fama e se tornando popular no cena literária.
II
Simone Az cria um romance de formação no qual o nó górdio está nas mortes reais e simbólicas vividas por Alice. Algumas desnorteiam não apenas a personagem, mas toda a família. Outras são sentidas sobretudo por ela, diante da sensibilidade demonstrada perante os acontecimentos lutuosos. Assim, temos uma protagonista que vive diferentes lutos, mas não passa pelo trabalho de elaboração da perda da mesma forma em todas as situações. O luto a coloca diante de questionamentos e fricções que apenas a morte do outro pode trazer à tona na vida das pessoas.
“O tempo está sempre morrendo e sempre nascendo. Morre o instante velho, nasce um novo, que morre, nasce outro, e por aí vai, numa fila indiana de instantes que não param nunca. Nesse ritmo, que às vezes anda mais lento, às vezes mais rápido, algumas histórias continuam, outras acabam de forma abrupta e dão espaço a novas tramas com novos personagens.” (p. 81)
As mais variadas formas da morte são exemplificadas no livro: do acidente de carro, no caso do pai, à morte do melhor amigo, passando por uma lista de causas registradas nos obituários produzidos por Alice quando trabalhava com esta seção do jornal. Ou seja, mesmo diante de uma narrativa que invoca o fim da vida constantemente, o signo da memória está sempre presente, atrelado à escrita: os relatos sobre a morte do outro, as cartas ao amigo morto e até o diário de Alice são exemplos: “Me joguei na cama, pensando muito no Nando e em como um luto lembra outro luto. Toda vez que morre alguém a gente pensa em outras pessoas que morreram” (p. 127).
Portanto, se a morte é uma personagem que paira em sua ausência/presença, modos de lidar com a perda são constantemente representados. Escrever, doar roupas e até tentar entender o sobrenatural aparecem no romance como formas de lidar com o luto, que também vem à tona depois de Alice tomar um chá misterioso e passar por uma bad trip.
“7. Tive experiências sobrenaturais. Numa madrugada, ouvi os passos do papai no corredor. Os sons pararam na porta do meu quarto.
Senti o perfume dele ao meu lado na cama, o mesmo perfume de mato que ele encomendava lá de Belém e chegava pelo correio. Comecei a chamá-lo bem alto, minha mãe acordou, a Bia também, elas abriram a porta e entraram. Bia me abraçou. Mamãe ficou de pé em frente à cama, com a cara amassada, e decidiu que no dia seguinte ia procurar uma psicóloga para mim.” (p. 41)
Outro ponto no romance de Simone Az é o modo como as mortes não estão restritas ao ambiente hospitalar, assim como as mortes simbólicas não se limitam a esse espaço. Existe, aqui, um retorno ao não séptico — próprio da morte, mas afastado pelo ambiente hospitalar e pelos procedimentos de higienização do corpo morto —, que distancia o enfermo da experiência da morte em casa, como reaviva o historiador Philippe Ariès. Logo, há sangue, mortes dentro de casa e o trabalho de escrever sobre crimes; a visita da morte é repentina, visceral e comunitária, como a própria morte para o sujeito.
Por último, por se flertar com o romance de formação, os momentos de transformação da personagem giram em torno desse corte repentino provocado pela perda do outro. São esses acontecimentos que resultam em mudanças na própria Alice, umas grandiosas, como morar em Nova York, outras internas, como a certeza de que ficará cercada pelos fantasmas de sua família. É também desse movimento que resulta o trabalho de narrar a vida dos falecidos no jornal, que posteriormente se transforma numa exposição de arte.
“Eu ia ser repórter da seção de obituários, ajudaria a escrever sobre os mortos, mas, ao contrário da maioria dos jornais, que só escreviam sobre a partida de gente famosa, a ideia do Luiz era que eu pesquisasse também pessoas anônimas que pudessem render boas histórias. Assim foi meu primeiro emprego em jornal: eu seria uma caçadora de mortos.” (p. 197)
Simone Az cria uma personagem que é, ao mesmo tempo, monumento e hotel macabro, numa remissão ao Hotel Dakota, um lugar em que Alice é circundada pelos fantasmas dos familiares e amigos — humanos e não humanos — que morreram. Ao fundo, está o blues, gênero associado à tristeza e ao choro, marcado pelo improviso, como a morte, que chega a qualquer hora.
Dakota Blues é um romance interessantíssimo. Muito bem elaborado, é um livro melancólico e pungente na medida certa, sem deixar de lado as discussões do fazer literário recorrentes no contemporâneo ou da história do Brasil; falar das mortes da família de Alice é também mapear uma nação.
A morte se mostra mais uma vez um tema atual, mesmo esgarçado, debatido, estudado ou figurado por muitos. Simone Az constrói com Dakota blues um romance alinhavado de mortalhas e feito da rememoração dos mortos de sua protagonista.
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Dakota blues
Simone Az
Companhia das Letras, 2025
Companhia das Letras, 2025
240p.

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