Postagens

O hábito da leitura

Imagem
Por Pedro Fernandes Ser culto é não ser curto Imaginemos viver um só dia apenas como analfabeto. Sem ler. Será que conseguiríamos? Num mundo como este, em que a leitura é fundamental, seria possível passar por tal experiência? Bom, creio que não há como ou necessidade de passarmos por essa experiência se ao menos não formos atingido por alguma dessas fatalidades neurológicas. Entretanto, conhecemos os que ainda não tiveram a oportunidade de aprender a ler e são pessoas que vivem essa experiência diariamente. Não saber ler devia ser considerado deficiência. O analfabeto vive preso apenas a um mundo e os múltiplos mundos feito com palavras só acessa pela intuição. É como andar no escuro. Agora, o Brasil padece de uma deficiência outra. Os que sabem ler não sabem o que leem. Não tiram proveito da leitura. Nesse grupo, estão aqueles que quando leem alguma obra literária, por exemplo, não sabem ou não conseguem construir um sentido que valha sobre o que leram.  Ler não ...

Crise, crises (parte II)

Imagem
Por Pedro Fernandes Por esses dias saiu neste espaço uma fala minha sobre uma crise que anda a assolar o mundo inteiro, conhecidamente de todos, porque tem sido sobre que a maior parte dos jornais e telejornais tem falado ultimamente, a crise econômica. Haveremos de concordar que esta é uma das muitas crises que vem atormentando a tão frágil organização humana. Mas junto com ela vem ou já estavam várias outras crises. Há a crise financeira. Há a crise política, a crise religiosa, a crise energética, a crise ambiental, a crise... Há crise para todos os gostos. Devo ter enumerado parte significativa delas. Ou senão as mais faladas ao lado da econômica. Umas não tão recentes assim, outras tão velhas quanto à existência humana nesse planeta. Houve crises, há crises e crises ainda haverá. Crises. A história humana é, pelas crises, permeada. Mas, tenhamos calma, isso ainda não é o fim dos tempos, como muitos fanáticos religiosos querem – uns até mesmo pedem em suas orações pela volta...

Os aforismos de Franz Kafka

Imagem
Por Pedro Fernandes   Modesto Carone se firmou na cena literária brasileira com um feito: tem se dedicado a verter para o nosso idioma a obra de Franz Kafka, seguramente um dos nomes mais importantes para a literatura do século XX. Esse trabalho de tradutor começou a ser apresentado pela Brasiliense e ultimamente tem se concentrado na Companhia das Letras.   No começo deste mês, a revista Serrote , uma publicação interessada em reunir ensaios, preenchendo uma das muitas lacunas entre as nossas carentes fronteiras da crítica, trouxe um encarte com algumas dessas pequenas pérolas.   Intitula-se Aforismos reunidos . Publicado on-line, o livrinho reúne mais de uma centena de anotações de Franz Kafka.   No também pequeno texto que abre a edição, Modesto Carone explica que essa forma textual foi recorrente nos escritos do tcheco, como se nota nos diálogos que manteve com o poeta Gustav Janouch em Conversas com Kafka (1953). Os aforismos — textos de definição marcante e c...

“Não Matarás”

Imagem
Por Pedro Fernandes Estava depois dos últimos acontecidos por entre os terrenos da igreja católica - enumero alguns para os de mente esquecida ou que padecem da mesma esquizofrenia sobre a qual se erige os muros das religiões: Inquisição, moléstia sexual de crianças, negação do Holocausto, e, entre estes, um bem recente, cá entre nós, que esteve a povoar a mídia, a excomunhão de uma equipe médica e dos envolvidos num aborto legal de gêmeos feito numa criança de nove anos grávida depois de molestada sexualmente pelo padrasto - e junto com esse painel de horrores fico lembrando-me de meu tempo de catecismo, quando a professora punha os alunos, entre eles eu, para ditar a tábua dos Dez Mandamentos da Lei de Deus. Dentre os mandamentos que ditávamos estava um, que não me lembro bem ao certo agora qual é, mas lembro-me claramente o conteúdo, "Não matarás". Associado a isso estive a lembrar também dos tantos discursos que a Igreja tem mostrado a favor da vida humana. Por esta...

Rimbaud, além do mito

Imagem
Para Albert Camus era “o maior de todos”, e Patti Smith o considerava “o primeiro poeta punk”. A Arthur Rimbaud (1854-1891) bastou um livro, Uma temporada no inferno , para converter-se em mito. Tinha 18 anos e pouco depois decidiu que a literatura havia morrido para ele. Queria viver todas a vidas. E, embora tenha morrido aos 37 anos de câncer nos ossos, quase conseguiu. As correspondências do poeta revelam os medos e anseios na desesperada voz de um homem condenado a ser errante, que viajou incansavelmente, foi professor, mendigo, explorador, comerciante, traficante de armas e até membro de um circo. O desemparado voo de um poeta cujas ordens visionárias – “Eu sou outro”, “Há que ser absolutamente moderno”, “A verdadeira vida está ausente” – o converteu no grande mito da rebeldia adolescente. Longe dessa imagem, sua correspondência inédita descobre outro Rimbaud. Mais íntimo e distante da lenda. Inquieto, irascível e insensato, também ansiava descansar o cabeça. Em 188...

Dez músicas a partir de Charles Bukowski

Imagem
No dia 9 de março de 1994 morria um dos últimos escritores malditos do nosso tempo, Charles Bukowski. Um desses criadores que não nos deixa indiferente e que gerou uma paixão algumas vezes incondicional. Claro, cultivou e cultiva uma extensa galeria de gente que não gosta ou não tem qualquer simpatia por sua obra. As razões para as duas condições é uma só: amar e desamar um tipo piadista, misógino (e mulherengo), sujo, violento e interessado em todos os vícios imagináveis.  É neste ponto de reflexão sobre o lado escuro da lua, onde Bukowski, através de seu alter ego Henry Chinaski, consegue encontrar ouro ao aprofundar-se na miséria dos perdedores mais defenestrados da sociedade. O escritor fez-se personagem de um tipo colocado à margem pelos mandos de gosto e consumo da sociedade a qual pertencia: os Estados Unidos e seus tentáculos capitalistas. E é neste ponto onde reside sua influência sobre a cultura popular, a revisão de alguns traços do erudito e um dos elementos cru...