Oito poemas dos Diários do Exílio (volume III), de Yannis Ritsos
Por Pedro Belo Clara
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| Yannis Ritsos. Foto: Eric Ritsou |
I.
(3 de fevereiro de 1950)
Toda a noite os mortos
trituram pedaços de gelo da lua.
Já não sabemos o que fazer
para não ouvir.
E os ratos comem-nos o pão.
O medo é maior que a raiva.
II.
(7 de fevereiro)
Sombras carregadas de pedras
o arame farpado
esqueceste-te da pronúncia correcta
do teu nome.
Um gato preto corre
com a lua presa à cauda.
Que estranho —
Um silêncio tão grande
E ninguém acorda.
III.
(15 de fevereiro)
Onde é que este arame farpado termina?
Caracóis rastejam sobre a roupa dos que foram assassinados.
E porém não viemos ao mundo
apenas para morrer.
Porque de madrugada
cheira a raspa de limão.
IV.
(24 de abril)
A sombra da folha voltada por causa do sol.
Descalça os sapatos. Descansa. Ou então recorda-te.
As mãos dos lenhadores cheiram a resina.
Atrás dos cestos pequenas raparigas
compõem os roxos e os vermelhos.
O teu erro é não quereres morrer.
Mas talvez os mortos também sintam fome.
V.
(5 de maio)
As tábuas do soalho estão bolorentas por causa da humidade
as janelas empenaram os vidros partiram-se
lençóis enodoados botas largas
o pão não tem cheiro
as pessoas ficaram muito magras
como santos.
VI.
(17 de maio)
O barco hospital espelha-se na água
branco com uma faixa cor de damasco que vai até ao cimo
é belo
dentro do aquário da quietude matinal
como uma tristeza antiga dentro de um poema novo.
VII.
(19 de maio)
Multiplicam-se os loucos e os estropiados,
precisamente agora
que o grande sofrimento terminou.
De noite conseguimos ouvir
o grito do louco vindo do telhado
amplificado sobre o mar.
Os olhos alargam-se
negros tão negros
negros tão negros
como duas tendas ciganas nos limites de uma cidade.
E lá dentro dois ciganos semi-nus
malham no ferro.
O som desse bater
torna difícil a escrita de uma carta
e ainda mais difícil a escrita de um poema.
Aqui tudo foi escrito com sangue.
VIII.
(1 de junho)
De manhã
o horizonte é
a fachada caiada de um orfanato.
Ao crepúsculo pende
da muleta de um aleijado
como uma meia esburacada em forma de ilha.
À noite os que foram mortos
reúnem-se debaixo dos rochedos
com algumas notas escritas nos maços de tabaco
com alguns papelinhos densamente rabiscados nos sapatos
com algumas estrelas clandestinas nos olhos.
Acima deles o céu agiganta-se
ganha tamanho e aprofunda-se
nunca se cansa.
Campo de concentração
Makrónissos, 1950.
Ligações a esta post:
* Traduções de José Luís Costa e Rui Miguel Ribeiro em Yannis Ritsos, Diários do Exílio (Edições do saguão, setembro de 2022)

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