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Literatura e revolução

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Por Gisela Kozak Rovero Ilustração: Vladimir Lebedev   Jean-Paul Sartre, em Que é a literatura? , exorta os escritores da primeira metade do século XX a dar o grande passo final: escrever uma literatura proletária. Irônico e demolidor com seus adversários, Sartre afirma que eles já conquistaram a liberdade de expressão; a desonestidade intelectual do filósofo e escritor francês clamou aos céus. A perseguição de intelectuais, artistas e escritores no campo socialista deixava muito claro que a liberdade de expressão não era uma conquista irremovível das vilipendiadas democracias liberais burguesas. O próprio Sartre, abandonando sua relação masoquista com o stalinismo, apoiaria de seu prestígio internacional a saída do futuro Prêmio Nobel de Literatura, Josef Brodsky, da União Soviética, para dar apenas um exemplo.   A modernidade exigia do homem ou da mulher de letras uma honestidade estética que era improvável entre escritores consentidos pela nomenclatura do socialismo real na...

Um trabalho contra as sombras

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Por Felipe de Moraes Primo Levi. Foto: Mario Monge   Pensar a obra de Primo Levi como um monumento da narrativa de testemunho, que não deixa esquecer as atrocidades do Holocausto, é sem dúvida essencial do ponto de vista histórico e cultural, ainda mais quando colocada em relação com outros depoimentos, manifestos, ou demais produções literárias ou memorialísticas de sobreviventes judeus que trazem a lume o funcionamento da máquina de extermínio nazista e o dia-a-dia nos campos de concentração, regidos por leis severas de obediência e de trabalho cujo ápice era o processo da total desumanização dos prisioneiros — Arbeit macht frei ; no entanto, se se adota unicamente tal perspectiva sociológica de leitura, a mirada sobre o caráter literário dos textos perde força, bem como a possibilidade de uma análise estética que uma obra como a de Levi suscita. Além do que, atentar para certos aspectos formais de uma obra pode revelar sentidos latentes que o comentário exclusivamente sociológic...

Chotaro Kawasaki, o escritor japonês que escrevia à luz de uma vela sobre caixas de cerveja

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Por Marta Ailouti   Autor periférico, referência fundamental do “romance intimista” no Japão do século XX, quando Chotaro Kawasaki tinha 40 anos passou a morar num barraco ao lado da casa dos pais na pequena cidade portuária de Odawara, antigo armazém que era usado para armazenar redes e outros instrumentos de pesca. Ali, sob a luz de uma grande vela e sobre alguns engradados de cerveja vazios, o escritor japonês dedicou horas e horas àquele trabalho pelo qual sacrificou toda a sua vida.   “Durante os dez últimos anos ele vive em um barraco de tábuas e telhado de zinco”, escreveu num de seus contos. “Nas noites de vento e chuva termina ensopado, apesar disso continua lendo e escrevendo sobre uma mesa feita de engradados de cerveja. Conta apenas com alguns pincéis e uma caneta para escrever, mas graças à inflação do pós-guerra ele consegue viver dos parcos lucros de sua escrita”.   Reivindicado por Kenzaburo Oē como um autor “irrepetível cuja obra não envelhece”, o Prêmio ...

Boletim Letras 360º #499

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, no sábado, 3 set. ’22, divulgamos aqui no blog e em todas as nossas redes de convívio virtual o resultado do sorteio entre os apoiadores do Letras . O pacote com os três livros seguiu para as mãos do ganhador na segunda-feira.   2. Os próximos sorteios incluem livros da editora independente Trajes Lunares. Em breve, divulgamos aqui e nas redes quais são os títulos. Convido o leitor a conhecer mais sobre o clube de apoios e outras alternativas para ajudar o blog com o pagamento das despesas de hospedagem na web e domínio. Você obtém todas as informações aqui .   3. E lembro que: a aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste Boletim garante a você ganhar descontos e ajuda ao blog sem pagar nada mais por isso . Toda ajuda é bem-vinda   4. Obrigado por tudo. Um bom final de semana com descanso e boas leituras! Samuel Becektt. Foto: Henri Cartier-Bresson   LANÇAMENTOS   A Relicário Edições publica a...

Dois mestres franceses: Patrick Modiano e Emmanuel Bove

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Por Matías Serra Bradford Patrick Modiano. Foto: Baptiste Giroudon   É sabido: precisa-se desaparecer para que outro possa nos transformar em figura de romance. Patrick Modiano dedicou-se a essas frágeis tarefas por mais de meio século. Em sua recorrente tentativa de restaurar dias distantes, repetindo-se despudoramente e sem necessidade de ser diferente de si mesmo, o autor de Dora Bruder tem sustentado que, se os segredos perduram durante toda a vida (estão inscritos em tinta invisível), serão como linhas de fuga, e isso significa o oposto da morte.   O romance Tinta simpática (tradução livre) é a prova mais recente de suas investigações retrospectivas, seu ritornello é justamente “há espaços em branco nesta vida”, e não pretende resolver todos os mistérios: “Temo que uma vez que você tenha todas as respostas, sua vida se feche sobre si mesmo como uma armadilha, com o ruído de fundo das celas de uma prisão.”   Não que confie em quantas evidências surjam. Prolife...