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Passeio ao farol, de Virginia Woolf

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Por Gabriella Kelmer Virginia Woolf. Foto: Man Ray                        No mês de junho deste ano, a Companhia das Letras publicou, sob o selo da Penguin Companhia, uma nova versão do quinto romance de Virginia Woolf, To the lighthouse , lançado em maio de 1927. A nova tradução, de Paulo Henriques Britto, recebeu o título de Passeio ao farol , escolha que, perfeitamente compreensível, elimina uma das possibilidades do título em inglês (que poderia ser dedicado ao farol, além de tratar da ida até ele). Neste ponto, no entanto, encerram-se todas as nossas considerações tradutórias. Ao romance.   Elaborado a partir de um processo de criação que sabidamente, conforme as correspondências da escritora, buscava, na ficção, algo de sua própria infância e da imagem de seus pais, a narrativa centra-se na família Ramsay, que viaja à ilha de Skye, no arquipélago escocês das Hébridas, durante dois verões, se...

Depois da quarentena

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Por Agustín Sánchez Vidal Luis Buñuel. Foto: Jack Garofalo. As quatro décadas que se passaram desde a morte de Luis Buñuel poderiam ter se tornado um dos muitos purgatórios reservados para aqueles que desfrutaram de um reconhecimento em vida que depois desapareceu com ele. Mas no seu caso não tem sido assim. Por um lado, porque nunca teve uma projeção excessiva entre o público comum à maneira de um Alfred Hitchcock. E, ainda, pela falta de enfoque derivada de uma carreira atribulada que apagou sua trajetória por muitos anos até terminar com o Oscar para O discreto charme da burguesia (1972) e a homenagem em Hollywood assinada pelos quadros superiores de seus grandes mestres. Apenas o tardio livro de memórias Meu último suspiro (1982) começou a lançar as bases para uma certa perspectiva coerente, apesar de tantos preconceitos ou omissões. E a partir daí, seu cinema, como um estopim retardado, foi se tornando cada vez mais influente. Não apenas sobre outros diretores, mas também entre ...

Borges e Hemingway, tão distantes e tão próximos, um século depois

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Por Cristian Vázquez Se nos propuséssemos a determinar quais foram os dois escritores famosos mais diferentes, e mesmo diametralmente opostos, do século XX, a dupla formada por Jorge Luis Borges e Ernest Hemingway seria uma forte candidata a conquistar esse título. Para o argentino, que imaginou o paraíso “como uma espécie de uma biblioteca”, é difícil para nós pensarmo-lo em qualquer lugar onde não esteja rodeado de livros, absorto em suas divagações cegas sobre labirintos, espelhos, tempo, eternidade. Já o estadunidense se encarregou de construir ao longo da vida uma imagem de machão, boxeador, correspondente de guerra, aventureiro, caçador... a tal ponto que se poderia perguntar: quando esse homem ativo conseguia ler?   No entanto, para além dessas descrições, fotos ou postais fixados mais típicos dos artigos enciclopédicos, o fato é que as biografias de Borges e Hemingway têm muito mais elementos em comum do que se poderia supor à primeira vista. E não só porque foram dois dos ...

O “realismo real” em Olhos D'água, de Conceição Evaristo

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Por Guilherme França Conceição Evaristo. Foto: Lucas Seixas.   Antes de justificar o pleonasmo do título, cabe explicá-lo ao leitor. Pois bem. Existem livros que frequentemente constam na categoria de obras denominadas realistas, entretanto, embora alguns acadêmicos tragam consigo uma lista de características objetivas que tornam uma obra realista ou não, sou daqueles que sempre compreendeu o núcleo essencial do realismo de uma forma mais pura e perceptível, ou seja, como aquilo que descreve a realidade. Do contrário, no caso de uma obra possuir todos os elementos objetivos/formais do realismo, mas nela existir pouco ou nada de efetivamente real, é de se questionar se ela pode figurar ao lado de obras que o fazem com tanta maestria.   Alguém poderia questionar: mas se uma obra contém os elementos formais do realismo, como não será realista? Bom, podemos pensar na obra (e agora fazendo uso da tal lista dos acadêmicos) em que o autor traga uma descrição minuciosa dos cenários, ...

Boletim Letras 360º #541

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Ariano Suassuna, Teixeira, Paraíba, 1978. Acervo da família Suassuna. LANÇAMENTOS   Indispensável para o universo mitopoético de Ariano Suassuna, caixa reúne um inédito do escritor.   A História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão , ou, mais simplesmente, O Rei Degolado , dá sequência à narrativa de Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o Quaderna, personagem-narrador de A Pedra do Reino . Quaderna, no segundo depoimento ao Juiz Corregedor, conta a sua infância no sertão da Paraíba, apresentando, de forma mais detalhada, personagens que já haviam aparecido em A Pedra do Reino e foram fundamentais na sua formação. Aprofunda, ainda, a dimensão mítica do seu relato, investindo na criação de uma mitologia brasileira, sobretudo a partir dos mitos de origem indígena e africana. Com fixação de texto e apresentação de Carlos Newton Júnior, e ricamente ilustrada por Manuel Dantas Suassuna, filho de Ariano, a obra é composta por dois volumes, dos quais o segundo encontrava-se, até o prese...

Vida de Szymborska

Por Juan Malpartida Wisława Szymborska (1923-2012) pertence a uma geração de poetas poloneses com nomes como Czesław Miłosz, Zbigniew Herbert, Tadeusz Różewicz ou Stanisław Grochowiak. Para entender a cultura literária que antecede e dá origem ao mundo em que Szymborska se formou, o erudito e memorável livro de Aleksander Wat (1900-1967) O meu século é extremamente útil. A este devemos acrescentar pelo menos O pensamento e Outra Europa , de Miłosz.   Anna Bikont e Joanna Szczęsna, em Quinquilharias e recordações. Biografia de Wisława Szymborska produziu um trabalho detalhado sobre a vida desta grande poeta. Não apenas investigaram suas publicações e documentos de arquivo, mas também pediram testemunhos de amigos e conhecidos de Szymborska e dela mesma. O melhor da obra tem a ver com a proximidade com a autora, além de uma pesquisa que, embora ainda incompleta, é notável. O pior, a falta de contraste e avaliação do personagem. As autoras são tão próximas, admiram e respeitam tan...