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Solitária, de Eliana Alves Cruz

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Por Renildo Rene Eliana Alves Cruz. Foto: Eduardo Anizelli   É um romance de espaços. Sua condição prévia de leitura é examinar o destino das famílias vítimas de violências/ crimes — sumariamente ocorridos no dia a dia — do ambiente doméstico enquanto percorre o dispositivo mais significativo do racismo brasileiro: a arquitetura das residências urbanas e a condição contemporânea do “quartinho da empregada”. Em seu quarto romance, Eliana Alves Cruz se volta para o período histórico ainda não retratado nos anteriores, o século XXI, e coloca em tela cheia uma narração intrigante para a literatura contemporânea, cheia de personagens simbólicas, metáforas recorrentes e uma narrativa envolta no enredo policial.   Mabel e Eunice, filha e mãe, guardam histórias particulares no Edifício Golden Plate, lugar do trabalho materno que constitui o centro de relações, desgostos e decisões de suas vidas ao longo de um bom tempo. Na organização dos eventos, a primeira narra a apresentação mais ...

Afire, ou o cinema como possibilidade de salvação

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Por Alonso Díaz de la Vega   Que estranho é o cinema de Christian Petzold! E não por razões aparentes. Se prestarmos alguma atenção, dá um ar convencional: seu estilo é econômico e rejeita tanto o minimalismo que enfatiza a passagem do tempo, quanto o (pós)modernismo que explora a forma cinematográfica através de cortes, planos e sons notórios. Na filmografia de Petzold, como no cinema clássico, a câmera não é percebida, a narrativa e os atores assumem a liderança, mas às vezes ficamos desconcertados: Transit (2018) se passa na França ocupada pelos alemães, mas aparecem carros e roupas da atualidade; Barbara (2012) e Phoenix (2014), que junto com Transit compõem uma trilogia sobre o amor esmagado pela história, mantêm um diálogo com o Novo Cinema Alemão e sua radicalidade, enquanto Undine (2020) é uma fábula romântica entre um humano e um criatura aquática, embora não tenha efeitos especiais e se distraia refletindo sobre a história de Berlim.   Em Afire (2023), filme m...

Os sons acariciadores

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Por Benjamín Barajas   Literatura e música estão ligadas desde a gênese de ambas as expressões artísticas. O teatro grego era acompanhado de cantos e instrumentos musicais em suas apresentações, e a poesia era inseparável da arte de Apolo nos recitais e banquetes da aristocracia ateniense; na verdade, o gênero da poesia lírica só era compreendido através do acompanhamento da lira.   Aristóteles considerava que o centro de gravidade da épica, do teatro e da poesia ditirâmbica era a poiesis ou criação e estas artes visavam representar as imitações da natureza e dos homens, através da ação, enquanto a música reproduzia o ritmo, a melodia e a harmonia e, sendo uma expressão das paixões, servia para moldar o humor das pessoas. Aristóteles não desenvolveu uma teoria da música, mas valorizou a sua utilidade; na Política recomenda-a para entreter, distender as tensões e purificar a alma dos ouvintes.   A reflexão sobre as qualidades artísticas intensifica-se durante o moviment...

Dorian Gray: a representação do sujeito contemporâneo

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Por Herasmo Braga Carly A F. Dorian Gray . Sem ser generalista ou peremptório, mas o reconhecemos que um dos traços fundamentais, marcadores dos grandes textos literários se encontra na perenidade e na constante atualização da obra diante de diversos contextos da contemporaneidade. Esses aspectos se fazem presentes, por exemplo, em O retrato de Dorian Gray , de Oscar Wilde. Impressiona como a leitura do sujeito, ao tempo da escrita, final do século XIX, diz muito do sujeito do século XXI. E isso não apenas nos defeitos e dilemas, mas sobretudo no modus pensandi que perpetua na contemporaneidade. O ser hodierno de Dorian expressa deveras o da atualidade.   Ao se remeter ao diálogo traçado em um momento do romance entre Dorian e o Lord Henry, enuncia-se o sentimento típico de hoje: “‘Ser bom é estar em harmonia com o nosso eu’”, ele respondeu, tocando a haste fina de seu copo com os dedos pálidos, pontudos. ‘A discórdia é sermos forçados a estar em harmonia com outros. A nossa próp...

Boletim Letras 360º #604

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Gerald Murnane. Foto: Aaron Francis LANÇAMENTOS   A estreia brasileira de um dos nomes de destaque na literatura australiana recente: Gerald Murnane .   Publicado pela primeira vez em 1982, As planícies  apresenta uma meditação sobre território, memória, amor e cultura, a partir da busca existencial de um jovem cineasta nas planícies do interior da Austrália. O livro é publicado pela editora Todavia; tradução de Caetano W. Galindo. Você pode comprar o livro aqui . Primeira e mais ampla antologia brasileira com a poesia de Hans Magnus Enzensberger .   Nascido no Período Entreguerras, Hans Magnus Enzensberger cresceu na Alemanha nazista e refletiu, em poemas e ensaios, sobre a experiência histórica de viver no mundo conturbado que se desdobrou desde então. Destinatário desconhecido: uma antologia poética (1957-2023) reúne noventa de seus mais importantes poemas, selecionados e traduzidos do alemão pelo poeta e professor Daniel Arelli, que também traduziu a poesia de H...

Rabelais perdeu a oportunidade (1959)

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Por Louis-Ferdinand Céline Gustave Doré. Gargantua, personagem criada por François Rabelais.   (Uma entrevista sobre Gargantua e Pantagruel concedida ao Le Meilleur Livre du Mois )   Você quer que eu lhe fale de Rabelais? certo, hoje de manhã folheei de novo a Enciclopédia , então, agora eu sei. Tem tudo lá dentro, na Grande Enciclopédia . Fazem-se carreiras formidáveis com isso. Justamente, procurei a palavra “Rabelais”.                 Veja, com Rabelais, falam sempre do que não se deve. Dizem, repetem por toda parte: “É o pai das letras francesas”. E, então, há o entusiasmo, elogios, que vão de Victor Hugo a Balzac, a Malherbe. O pai das letras francesas, ulalá! não é tão simples. Na verdade, Rabelais perdeu a oportunidade. Sim, ele perdeu a oportunidade. Não conseguiu.                 O que ele queria fazer, era uma lingua...