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Seis poemas dos “Diários do exílio”, de Yannis Ritsos

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Por Pedro Belo Clara     I. (27 de Outubro de 1948)   Aqui os espinhos são tantos — espinhos castanhos, espinhos amarelos, ao longo de todo o dia, espinhos até no sono.   Ao saltarem o arame farpado, as noites deixam para trás pequenas tiras da saia.   As palavras que outrora nos pareceram belas perderam a cor, como o colete de um velho num baú, como um pôr-do-sol embotado nas vidraças.   Aqui as pessoas caminham com as mãos nos bolsos ou gesticulam por vezes como se afugentassem uma mosca que poisa uma e outra vez no mesmo ponto no rebordo do copo vazio ou dentro dele um ponto tão indefinido e persistente quanto a sua recusa em reconhecê-lo.     II. (29 de Outubro)   O que dormimos é pouco: não chega. Toda a noite ressonam os exilados — rapazes cansados, tão cansados.   Lá fora estão as estrelas — estrelas enormes estrelas rapadas cujo cabelo cresce selvagem como da cabeça de São João Baptista ou do nosso Panayótis. Há também peque...

Boletim Letras 360º #649

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DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Adélia Prado. Foto: Ana Prado   LANÇAMENTOS   Doze anos após o lançamento de sua última obra, Adélia Prado, vencedora dos prêmios Camões e Machado de Assis, retorna à poesia com O jardim das oliveiras , uma reunião de 105 poemas inéditos .   Após doze anos sem publicar um livro inédito desde o comovente Miserere (2013), Adélia Prado retorna ainda mais profunda e madura em O jardim das oliveiras , um livro que é ao mesmo tempo síntese e reinvenção de sua obra, um mergulho poético na aridez e na transcendência, no mistério e na lucidez. Os poemas aqui reunidos retomam temáticas vivas na obra da autora, como o conflito essencial entre luz e sombra, fé e dúvida, poesia e silêncio. Em versos de grande força simbólica, o sagrado e o cotidiano se entrelaçam com rigor e desatino. A poeta elabora uma reflexão radical sobre a origem da l...

Trakleanas

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Por Eduardo Galeno Paul Klee. Angelus Descendens . 1918. Heidegger foi um dos que aproximaram poesia e pensamento . Sim. Provável que Trakl a tenha procurado. Nesse motivo de interação, a suspensão da língua dá o seu modo de aparecer. E o que chegam? As tentativas e as frustrações.   Viciado em cocaína e ópio, farmacêutico formado e em pleno rebuliço da guerra de 14, espreitava também sua irmã; significava a total adesão ao lusco-fusco existencial.   Entrar em Trakl é tão simples quanto lê-lo: imagens límpidas, mas igualmente fogosas. Enjambement certeiro. O universo é um embarcar na interioridade e, sempre salvaguardando a palavra, ecoa a risca entre o verbo e a estrela. Absorve.   Lemos Salmo e, infiltrados na floresta escura, nas figuras (que servem a ele como empecilhos no papel de luta contra a floresta) nos vemos deslocantes da ideia sobre a unidade da escuta. Georg fora destinado a cumprir o eon do declínio pelas esferas que o construíam: a luz, a taberna,...

Sodomita, de Alexandre Vidal Porto

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Por Pedro Fernandes Alexandre Vidal Porto. Foto: Alexia Fidalgo. O livro de Alexandre Vidal Porto publicado em 2023 integra a vasta linhagem dos romances interessados por algum aspecto do período colonial brasileiro, sem dúvidas, um dos mais fascinantes e também desafiadores para o imaginário de um escritor, porque exige dele, não apenas a necessária criatividade do fabulador, mas também uma pesquisa histórica abrangente a fim de não incorrer em generalizações, incongruências ou anacronismos, sobretudo agora em que se predomina entre os nossos romancistas uma leitura da história a contrapelo.   Sabemos que nos primeiros séculos de presença portuguesa essas terras que se queriam de Santa Cruz serviram de cativeiro para muitos dos condenados pela Coroa ou pela Igreja e entre essa leva estiveram homens acusados do crime de sodomia. Luiz Mott — talvez o nosso mais importante pesquisador nesse assunto, autor, dentre outros de um dicionário fruto de um levantamento em documentos oficiai...

Bird e a sinceridade de Andrea Arnold

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Por Ernesto Diezmartínez   Perto do final de Bird (Reino Unido, Estados Unidos, França e Alemanha, 2024), o sexto longa-metragem da consagrada cineasta inglesa Andrea Arnold ( Aquário , 2009; a precoce obra-prima O morro dos ventos uivantes , 2011; Docinho da América , 2016 e Cow , 2021), um personagem diz ao outro, como uma serena lição existencial, que “a vida nem sempre precisa de sentido”. É uma declaração esperançosa que, à medida que nos aproximamos da conclusão do filme, serve como um contraponto necessário a tudo o que vimos: pobreza, abandono, vício e violência. Embora, em meio a tanto contínuo infortúnio, também tenhamos visto generosidade, solidariedade, amor e, acima de tudo, sinceridade.   Apresentado no Festival de Cannes 2024 — onde foi vergonhosamente ignorado pelo lamentável júri presidido por Greta Gerwig, que decidiu conceder o prêmio ao indefensável Emilia Pérez (Audiard, 2024) — Bird é marcado, do começo ao fim, pela sinceridade. Não há duplicidade nos...

Um novato chamado Balzac

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Por Carlos Yusti O escritor que imitaria sem hesitar, e que de alguma forma constituiria, em meu museu pessoal de mitos, um ideal, uma fonte inesgotável de inspiração, poderia ser Honoré de Balzac. Embora não o Balzac perseverante, obstinado, incansável e disciplinado que escreveu (sob a pressão de dívidas, credores e editores) uma obra literária profusa, e que, em muitas de suas páginas, conseguiu alcançar, com gênio indiscutível, enorme versatilidade literária e uma grandiloquência mais realista do que metafórica. Não. Minha inclinação é para outro Balzac, aquele que, devido a um ansioso apetite, adquiriu uma adiposa constituição, aquele Balzac preocupado em ser um dândi, e que, por causa disso, gastou fortunas em ternos chamativos ou luxos extravagantes e desnecessários; aquele Balzac que ansiava acima de tudo por sucesso financeiro, por ser um burguês menos imbecil e insuportável do que o burguês retratado em seus romances ou na vida real, com quem sempre conviveu à distância devid...