Postagens

A recepção da literatura brasileira na França

Imagem
Por Márcio de Lima Dantas  Paulo Coelho. Foto: Niels Ackermann Para nós, estudiosos e professores de literatura brasileira no Brasil, que vivemos e pesquisamos aqui na França, nos é extremamente esquisito o fato de Jorge Amado e Paulo Coelho serem os escritores brasileiros mais conhecidos quando se refere à nossa literatura nacional. Quando se fala em literatura brasileira, são os dois únicos nomes que vêm à memória. Fato que só temos a lamentar, pois somos detentores de uma rica literatura, tanto em ficção quanto em poesia, inclusive os nossos grandes escritores já foram traduzidos para a língua de Montaigne. Inicialmente seria bom separar o joio do trigo. Muito bem, Paulo Coelho não é escritor, nem nunca será. No Brasil, não tem o estatuto de escritor, não é  reconhecido por pessoas com um relativo repertório cultural, nem  muito menos pela crítica especializada, que não o tem em conta — e com razão —, como objeto de estudos. Ninguém perde tempo com a obra deste senhor,...

A palavra-legado de Noemi Jaffe

Imagem
Por Gabriella Kelmer Noemi Jaffe. Foto: Zanone Fraissat Em Te dou minha palavra , obra publicada pela Companhia das Letras em 2025, Noemi Jaffe desvela-se, na epígrafe, na figura de um mosquito embevecido pela atração incômoda e perigosa de um vulcão em erupção, do qual consegue se afastar atabalhoadamente. A analogia se torna clara à medida que o texto avança, refigurando-se nos trens, nas menções ao campo de concentração, no cotidiano da família judia e trabalhadora do Bom Retiro, no espraiamento identitário por músicas, filmes e livros da menina filha de sobreviventes do nazismo, para quem a cultura e a rebeldia são réplicas potentes. Remanescente de uma vivência autoficcional reelaborada desde os seis, os oito, os onze, os quatorze anos, funciona o passado de vórtice para uma discussão complexa e refrativa do tempo. O mosquito é ela, autora e narradora, mas também a criança que ela foi; o vulcão é o fascínio exercido simultaneamente pela história da catástrofe que resultou na mudan...

O herói de mil faces: a digital de Aristóteles e Campbell no cinema

Imagem
Por Pilar R. Laguna   Poucas questões têm obcecado tanto escritores, roteiristas e dramaturgos quanto o que faz uma história funcionar. O volume de especulação que isso produziu é inegável, e escolas e cursos de escrita continuam a lucrar bastante. Existem inúmeros manuais e guias práticos que ensinam, passo a passo, os segredos da narrativa, tentando resolver algo essencialmente antropológico. Poderíamos negar que a arte de contar histórias acompanha a humanidade desde que recebemos esse designativo? Das pinturas rupestres e canções folclóricas às cartas de amor e à invenção do cinema, é revelador parar e considerar o quanto do que nos rodeia constitui uma história, real ou imaginária. E, ainda mais, como somos capazes de atribuir uma história a coisas que não a possuem — como um encontro entre dois estranhos na rua, um objeto perdido ou uma frase tirada de contexto. As histórias são uma ferramenta essencial para a construção da identidade e, portanto, tanto indivíduos quanto grup...

Texaco, de Patrick Chamoiseau

Imagem
Por Amanda Fievet Marques Patrick Chamoiseau. Foto: Lea Didier Publicado em 1992 e laureado com o Prix Goncourt do mesmo ano, Texaco é o terceiro romance do escritor francês de origem martinicana, Patrick Chamoiseau. O romance traça um afresco da história da Martinica, por meio da narrativa fragmentária e não-linear das reminiscências de Marie-Sophie Laborieux, que começa a rememorar pela vida do seu avô, depois pela de seu pai, Esternome e, por último, pela sua.  A narrativa mnemônica de Marie-Sophie, que opera pela exposição intermitente das suas lembranças, trabalha pela tessitura das oralidades, as histórias que lhe contaram e que agora ela reconta, e que existem sob a História oficial: “(…) histórias das quais nenhum livro fala, e que para nos entender são as mais essenciais” (Chamoiseau, 1991, p. 49).¹ Seu avô, senhor Pol, havia sido um escravo envenenador — ofício que se praticava contra as colheitas e o gado do branco escravagista, o Béké , em língua crioula da Martinica —...

Nelsinho: o último trágico rodrigueano

Imagem
Por Juliano Pedro Siqueira Nelson Rodrigues Filho, Foto: Daryan Dornelles. Era 30 de março de 1972, quando os agentes do DOI-CODI abordaram Prancha e o conduziu a uma base da Guarda Militar no Méier. Naquela altura, Prancha era um dos nomes mais procurados pelos órgãos de repressão ligados à ditadura. Detentor de uma aparência inconfundível, o homem que carregava a alcunha de Prancha tratava-se de Nelson Rodrigues Filho ou Nelsinho, filho do consagrado dramaturgo e cronista, Nelson Falcão Rodrigues.  Naquela altura, Nelsinho já vivia na clandestinidade depois de se tornar membro do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). Contrariando os conselhos do pai e do irmão Joffre, Nelsinho se engajou no movimento e chegou, inclusive, a elaborar o plano de assalto a um banco. Enquanto isso, adotou um estilo nômade; cercado de códigos e endereços secretos. Nem mesmo Nelson pai — que lutava pela débil saúde — sabia do real paradeiro do Nelson filho.  Antes da sua captura, sabendo Ne...

Boletim Letras 360º #681

Imagem
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  António Lobo Antunes (1942-2026). Foto: Bruno Simões Castanheira LANÇAMENTOS Uma saga que retrata de forma magistral os últimos dias de nobreza de uma linhagem aristocrática húngara. Inspirado na própria família do autor, Nelio Biedermann, Lázár é um dos grandes acontecimentos literários do ano . Lajos von Lázár vem ao mundo junto à alvorada do século XX. Seu nascimento é, ao mesmo tempo, um milagre e uma maldição, e sua verdadeira herança, um segredo que ele jamais conhecerá. Há gerações, os von Lázár governam suas terras na Hungria, abrigados em um castelo ...